quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rabis* pelos Direitos Humanos

Alguém que andou a fazer o mesmo e ao mesmo tempo no Dia de Jerusalém :) Aqui, no site da Rabbis for Human Rights.


*Bem sei que em português se diz "rabinos". Mas acho a palavra desagradável (ela ganhou mesmo contornos anti-semitas) e não me parece que "rabi/s" seja errado.

Cabeceira


Na mesa de cabeceira, e porque já era altura de ir além de Amos Oz ou de David Grossman, dois livros bem interessantes: Friendly Fire, de A. S. Yehoshua e Dancing Arabs, de Sayed Kashua. (Pena que o mais recente deste último, Second Person Singular - a história de um árabe que se faz passar por judeu - não esteja ainda traduzido).

   

moda/modéstia


Parece óbvio dizer-se que "a burka" (já lá iremos...) esconde mais do que revela. Mas há vários erros nisto. Ela também revela mais do que esconde, nomedamanete a pertença religiosa e a afirmação de certas normativas a ela associadas (desde logo o ordenamento de género). E mesmo quando se fala daquilo que ela esconde, não sabemos exatamente o quê - que vestem as mulheres por baixo? Que fazem quando estão entre companhia feminina? Que fazem em casa?

Aqui convem fazer um parênteses e dizer: a burka é uma forma específica de vestuário, de um contexto étnico e religioso concreto, não de todo o Islão. Tornou-se, sobretudo no Ocidente, num ícone e numa metonímia de todo um espanto e repulsa perante o Islão mais conservador. Ela serve tanto ou mais para "falar" da islamofobia como para falar da solidariedade com a opressão das mulheres. Acaba por esconder várias outras coisas: dos feminismos islâmicos até à diversidade de formas de organização do género em países islâmicos, até às negociações e manipulações que mulheres e homens de diferentes identificações sociais fazem das regras de vestuário.

É já sabido como no Irão, por exemplo - onde não há, em rigor, burka - muitas mulheres investem no que vestem por baixo do traje islâmico, para uso caseiro. E nem sequer comecemos a falar dos múltiplos sentidos e interpretações e usos do traje islâmico em termos quer de relações de género, quer de decisões individuais, quer de afirmações étnicas ou políticas (basta recordar os célebres e muito confusos debates sobre o "véu" em França).

Tudo isto a propósito disto: não é só no Islão que o traje feminino é alvo de atenção religiosa. Já nos esquecemos das posturas cristãs em relação a isso, talvez porque muitas delas se diluiram no que depois parece "simples" código cultural. Também no judaísmo ortodoxo vamos encontrar esta questão. Ela é complexa: vejo nas ruas mulheres que claramente seguem os preceitos religiosos das vertentes ortodoxas mas que o fazem com um estilo que revela que a sua adesão às normas foi isso mesmo, adesão; e com motivações que quase roçam o new-age ou uma espécie de entusiasmo "étnico". Lado a lado com outras em que se adivinha a enculturação desde crianças em certos códigos de modéstia, impostos e controlados. Haverá de tudo. Penso na minha irmã adotiva americana (judia), que era uma miúda "normal", de classe média alta, fascinada com maquilhagem, barbies e vestidos e que hoje, já adulta, se converteu a uma identidade ultra-religiosa - usa saias compridas, peruca ou lenço, cobre os braços e as mãos.

Nada mais errado do que pensar à maneira das ciências sociais ou da política "modernas" (dos finais de século XIX e da primeira metade do século XX), imaginando uma dicotomia clara entre iluminação, emancipação e secularismo, por um lado, e trevas, submissão e religião pelo outro. (Muitos dos fundadores do estado de Israel pensavam assim e talvez por isso não se tenham importado de conceder aos rabinatos a gestão de muitas áreas do direito civil. Pensavam que o seu projeto laico iria triunfar "naturalmente", com a "evolução" da sociedade. Bem, enganaram-se)

Veja-se este anúncio a fatos de banho dirigido sobretudo (mas não só?) às mulheres judias religiosas (aqui "religioso" quer dizer "super" ou "ultra" religioso, com implicações politicas e de uso do espaço público e não como mera referência às convicções individuais de um "sentimento religioso privatizado") com que me confronto todos os dias ao abrir a página do Ha'aretz, um jornal liberal e muito crítico do crescimento da ortodoxia religiosa: modéstia, luxo e moda são significados que vão juntos e não, ao contrário do que diria o pensamento dicotómico, oxímoros. A tarefa antropológica mais difícil de todas é compreender - sobretudo compreender o que nos dá comichão...



domingo, 20 de maio de 2012

Dia de Jerusalém

"Dia de Jerusalém". Celebra a reunificação/ocupação da cidade em 1967. Além das cerimónias de estado, é costume sairem à rua muitos jovens sionistas e não são raras as situações de provocação e confronto em bairros predominantemente árabes. A banda sonora do dia é, aliás, estranha: muita juventude na rua, celebrando num modo entre a manifestação, a simples passeata, e o carnavalesco; silêncio e circunspeção árabes. Aqui, claro; e helicópteros sobrevoando constantemente. De manhã ainda as coisas não tinham escalado e fui ao shuk, ao mercado. Nesta minha estadia o modo é o do viajante subjetivo, chamemos-lhe assim. Não é o modo jornalista, nem o modo turista, nem sequer, ainda, o modo antropólogo. Não sigo os protocolos de nenhum deles, mas deixo-me simplesmente impregnar, sentir, ver - numa atitude de prospeção, em suma.





Compro cerejas-passa a dois mercadores com quem tive mesmo de falar em hebraico (mal):


Conversei com este vendedor de pão. Ele estava convencido que Portugal era na América do Sul e eu, pobre tuga, tive lhe falar em Sfarad (Espanha) para que percebesse que é na Europa...:


Mais abaixo na rua, o rapaz que me vende tabaco, mal me ouve dizer "ani mi-portugal" começa a falar espanhol, perguntando-me, "ah, fala espanhol, não é?". "Bem, falar até falo, mas a minha língua é o português". "Ah, sim, claro, desculpe: 'obrigado', 'frango'". ("Frango?" What the... Ainda não vi Nando's aqui). Curioso é que, por via da nacionalidade, acho que parte do princípio de que sou cristão, e sugere-me a ida à Via Crucis, ao Santo Sepúlcro, a Nazaré. Explico que a Nazaré não fui, mas andei pela Galileia há dois anos. Ele imediatamente liga a Galileia ao Líbano, diz que tenho de lá ir, "cristãos e muçulmanos juntos" (pois...). Adivinho que é árabe cristão. Pergunto. Confirma. Bingo.

Pela primeira vez nesta estadia fui à Cidade Velha. Estava a armar-me em não-turista. Na Porta de Jaffa, o carnaval do Dia de Jerusalém: os turistas de sempre, os soldados (em excursão, neste caso), alguém a fazer de cavaleiro medieval, repórteres. Jerusalém tem o seu quê de Disneyland, só que uma em que acontecem coisas a sério e sérias.



Perco-me na Cidade Velha. Deixo-me ir até à secção muçulmana, para fugir às celebrações, à quantidade de adolescentes correndo e cantando com bandeiras. As lojas estão a fechar. Saio pela Porta de Damasco, que dá para Jerusalém Este, a parte árabe e reunificada/ocupada. Sente-se um clima. Mais soldados, estes definitivamente não em excursão. Começam a colocar barreiras na rua defronte. Saio por pouco. Há repórteres, de TVs israelitas e outras. Uma altercação ao longe. O quê exatamente, não sei. Sirenes. Ao meu lado, dois miúdos, não teriam mais de 12 anos, um judeu, com a t-shirt sionista dos celebradores do Dia, o outro árabe. Trocam palavras duras, provocam-se, tocam os ombros, miúdos em pátio de escola. Nada acontece. Adultos, judeus e árabes, mandam-nos estar quietos. Duas mulheres árabes explicam-me que, entretanto, foi cortado o trânsito na zona, montado um checkpoint.


Subo de novo na direção da Porta de Jaffa. Pouco antes, e graças a ter ficado sentado a apanhar sol ao lado de dois soldados que falavam russo entre si, vejo chegarem 4 figuras totalmente pintadas de branco, vestidas de soldados, com armas. Tratava-se obviamente de uma performance. O branco é a cor do Dia de Jerusalém. Os figurantes, que assim provocavam a militarização e instigavam reações, estavam a ser provocados por miúdos que cantavam slogans sionistas. (São de facto performers - estes (obrigado, Internet)):






[Escapo à massa de adolescentes, bandeiras, e o som dos helicópteros. Jovens religiosos dançam ao som de música techno bem alta no cimo de uma furgoneta. O dia termina numa nota bem diferente, numa simpática livraria-café, a Tmol Shilshom, escondida num logradouro a que se chega aravés de um beco, como muitos tesouros nesta cidade. Para ouvir um jurista americano, Frederick Hertz, falar de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sobre isso,  no Snake&Snail].










Dia off em Tel-Aviv

Sem autocarros ou elétrico por causa do shabat, sigo a pé pela Herzl. De vez em quando passa um carro, mas em geral só se vê pessoas caminhando. Esta é a nova Jerusalém, a ocidental, com a ponte do Calatrava adornando o novo sistema de elétricos rápidos. É quase irónico que esta modernidade, certamente feita como contraposição simbólica ao "oriente" do outro lado (veja-se este artigo sobre o estudo da Ir Amin sobre Jerusalém este), acabe por ser ocupada cada vez mais pela população religiosa, parte dela anti-sionista - não pelas razões usuais do anti-sionismo, mas porque para esse segmento Israel como entidade política é um absurdo antes da chegada do Messias.



Os ultra-religiosos, sobretudo os mais visíveis haredim, são um desafio e um exemplo antropológicos. Estamos habituados a associar o extremismo religioso a formas específicas de puritanismo e controlo do corpo e somos surpreendidos neste caso. Esse controlo existe, claro, mas aplica-se a coisas diferentes das da experiência cristã ou outras - está lá a segregação sexual, está lá o controlo das fronteiras do puro e do impuro entre o grupo a que se pertence e os outros. Mas há formas de expressão que surpreendem quem pense que a gramática destas coisas é sempre a mesma: na dança, na música, na loquacidade, na ocupação do espaço público, não estamos perante nem o puritanismo protestante nem a atitude de freira. No caminho ao longo da Herzl, um jovem haredi com brinco na orelha cruzou-se comigo e cinco minutos depois foi abalrroado por outro que corria desenfreado, segurando o chapéu com uma mão, só para atacar o outro pelas costas na brincadeira. Mas esta cidade está "tomada" e cada vez mais, por uma população que tem mais filhos, que recusa enviá-los para a tropa, que beneficia do estado social e que procura controlar as regras gerais de convivência. E a luta está declarada. Veja-se, por exemplo, esta disputa entre seculares e religiosos em torno de um espaço devoluto e sobre o que fazer com ele.

Avanço pela Jaffa Road, também ela vazia e mando bugiar um taxista que quer dar-me boleia - mando bugiar porque ele, depois de toda uma sedução, perguntando de onde eu era, dizendo "bom dia" em perfeito português, etc, arranca sem se despedir e com cara de pau quando lhe digo que não quero táxi e que "ani lo tayar" (não sou turista). Na Ha-Rav Kook entro num van, um sherut, o serviço de táxis coletivos, assegurados aos sábados por condutores sobretudo árabes. Rapidamente enche com gente querendo ir para Tel-Aviv. Fico sentado entre um jovem israelita com dreadlocks, manipulando o seu i-pod, e um jovem negro que não falava hebraico nem inglês. O sherut arranca e num sinal vermelho é parado por um homem negro, falando muito pouco hebraico, que começa uma conversa complicada com o condutor, que só lhe pergunta "o que é que queres, o que é que queres?". Aparentemente o outro queria falar com o que estava sentado ao meu lado, que ainda se mexe para sair do táxi. Mas o condutor, irritado com a situação, e vendo o sinal a mudar para verde, grita um impropério e arranca. Fico pensando como serão as atitudes dos árabes para com o crescente número de imigrantes africanos em Israel...

Chego a Tel-Aviv a uma estação de autocarros com todos os estereótipos do terceiro mundo. Uma quantidade enorme de vans, gente de todas as cores e roupas circulando, gesticulando, correndo, músicas de todos os tipos, lojinhas e lojecas, praças inteiras cheias de africanos conversando em grupos, comerciando, divertindo-se, esperando, circulando. Aparentemente trata-se de uma vasta população de imigrantes, não necessariamente nem sobretudo judeus etíopes, mas sim imigrantes económicos e refugiados, cujo mau tratamento tem sido denunciado por alguns jornais - ou não fosse o ministro responsável de um partido da direita ultra-religiosa, acusando os imigrantes do mesmo tipo de contaminação e impureza pela qual os seus antepassados foram acusados...

Pego mais um sherut, o número 5, desta feita conduzido por um russo, até ao centro Dizengof e encontro-me com o meu amigo Or. Vou até sua casa, e do seu companheiro, o Shai, onde me recebem para um belo almoço de peixe, kinoa e salada. A comida e as pequenas interações do quotidiano urbano talvez sejam os melhores indicadores da sensação que se tem de um encontro e mistura entre "a europa" e "o médio oriante". Na comida nota-se a influência da europa central - nos laticínios, nas sobremesas, por exemplo - aliada à influência "oriental" - os humus, as pitas, por exemplo - e tudo isto se encontra e potencia numa cultura das saladas e dos frescos, que é extremamente revigorante e saudável. No pequeno quotidiano, e só neste dia, notei duas "linhagens". Por um lado, toda a gente respeita os sinais de trânsito e as passadeiras, por outro ninguém faz fila para nada; por um lado os vans parecem funcionar como numa cidade africana, mas por outro percebe-se que têm rotas definidas, que estão oficializados. Dentro deles, as pessoas sentam-se primeiro, depois dão o dinheiro a outro passageiro, que o passa a outro até chegar ao condutor e vice-versa para o percurso do troco.



O meu amigo está doente, com febre, e deixo-os descansando e vou para a praia, dia off. Praia urbana, claro (o Rio vem à mente) e, sendo sábado, apinhada. Procuro a praia gay, lá para o fundo, tal como a praia segregada, onde em certos dias só podem ir homens e noutros mulheres, oferecendo assim um serviço aos mais religiosos mas, curiosamente, também a mulheres que não queiram ser incomodadas. Por azar não leio os sinais bem - os que dizem "não são permitidos animais" - e caio na única praia que permite cães, pelo que tive um dia... canino. Ninguém controlava os cães ou pedia desculpa pelo que faziam; mas também ninguém pedia desculpa pelo spray solar que voava até aos outros, pela música a altos berros, pelo cheiro do haxe, ou pelo que fosse. Felizmente - e não estava exatamente na praia gay, até porque não era tão evidente como isso - também os casais do mesmo sexo não pediam "desculpa" por estarem de mãos dadas.


No regresso deambulei por uma cidade de calções e havaianas, bicicletas e scooters, sem a paisagem humana religiosa - o inverso de Jerusalém. Acabo por voltar a Jerusalém. O Or tinha ido ao médico e precisava mesmo de descansar, pelo que cancelámos planos de divertimento noturno. Tel-Aviv e Jerusalém são tão perto que facilmente tomei o autocarro (o shabat acabara ao pôr-do-sol, momento lindo, aliás, com n estabelecimentos reabrindo, e para a noite, como se fossem flores noturnas desabrochando), desta vez noutra estação, na zona super-moderna da cidade. Ao meu lado uma mulher desenhava no i-pad, tocava Gotye em versão dançável, seguindo de cançoes schmaltzy hebraicas (muitas rádios misturam tudo, o que é delicioso) e as luzes da autoestrada adormeceram-me na subida para Jerusalém.



Hoje - escrevo no dia seguinte à ida a Tel-Aviv- é Dia de Jerusalém e as coisas já aquecem. Chega de intervalo Tel-Aviviano (mesmo que haja, e há, muito que explorar em termos de pistas de pesquisa - o meu amigo ficou de me apresentar a um outro que trabalha numa clínica de DST com imigrantes).  Há que sair à rua e ver.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Notas soltas, 17 maio


Nota solta 1: Ontem uma aluna deu-me boleia, e a mais duas colegas, a seguir à aula. Falávamos sobre os diferentes sistemas universitários e ela comentou: "Pois é, vocês no fim do liceu especulam sobre qual o curso em que vão entrar e nós sobre qual a unidade do exército".

Nota solta 2: Esta minha aluna é de Haifa. Segundo ela, uma cidade com mais população árabe e com orgulho num certo nível de integração, à semelhança do caráter multicultural das cidades portuárias. As representações locais apontam no sentido de um trio: a Jerusalém disputada e religiosa, a Tel Aviv secular e hedonista, a Haifa misturada e mediterrânica.

Nota solta 3: Conversa-se no carro sobre questões raciais que haviam sido abordadas na aula, a propósito do Brasil e dos EUA. Uma aluna brasileira-israelense assume como no Brasil não tinha zonas de contacto que permitissem desenvolver amizades próximas com pessoas negras. O mesmo para outra aluna israelense que viveu nos EUA. E a condutora refere como não conhece árabes com quem tenha relações de proximidade.

Nota solta 4: A minha aluna brasileira, M, cresceu numa família ateia e sem ligações à comunidade judaica. Mas resolveu fazer aliyahcomo parte de um processo de mudança de vida, de riqueza identitária, e de aventura. O processo é, sem si mesmo, rico em termos de análise antropológica. Contacta-se a Agência Judaica para iniciar o processo, cujo primeiro passo é a comprovação da ascendência judaica até à geração de um avô/avó. A prova é religiosa, feita por um rabino que analisa documentos como certificados de casamento ou de óbito, entre outros. Aceite a candidatura, o Estado paga a viagem, concede a cidadania à chegada e coloca as pessoas em Centros de Absorção. São de vários tipos, para jovens, solteiros, famílias, e há-os específicos para os judeus etíopes. Vive-se nos centros, com um subsídio pequeno, podendo logo procurar-se trabalho. Aprende-se hebraico, num processo que, no caso dela, foi de 5 meses. A narrativa das diferentes origens nacionais e motivações do colegas de Centro é fascinante - e seduz para uma investigação antropológica sobre projetos e reconfigurações identitárias, num interface entre os indivíduos, as suas origens, e o papel do estado na formação de identidade. Há, aliás, um livro sobre um caso específico de um centro para etíopes (Immigrants and Bureaucrats, de Esther Herzog)

[o blog da M, em português: Ani rotza bira]

Nota solta 5: Quintas-feiras: estudantes e mais estudantes (e não só) nas ruas e bares. Sexta de manhã as lojas abrem e toda a gente se abastece. A partir do meio da tarde tudo fecha e o Shabat começa ao pôr-so-sol, prolongando-se até ao pôr-do-sol de sábado. Sábado á noite, mais diversão. Domingo, dia de trabalho normal, não começa, por causa dos efeitos da noite anterior, antes da hora de almoço (aulas, por exemplo, só na tarde de domingo). Este "desvio" no tempo é das coisas mais curiosas em termos de adaptação cultural.

Nota solta 6: Jantar fora, visitar um bar alternativo, acabando no bar gay de Jerusalém, o Mikvah (uma ironia: a palavra quer dizer banho ritual de purificação e é uma referência religiosa...). M tem uma postura secular e de esquerda, mas uma sensibilidade antropológica. A princípio detestava o Shabat e o peso religioso que isso significava sobre a cidade, que fica com as ruas vazias (embora com a vantagem de, nos poucos sítios abertos, saber-se que toda a gente é secular...), mas aprendeu a gostar do silêncio, da contemplação, da sociabilidade diferente, que cultiva com jantares caseiros com amigos, mesmo sem a tonalidade confessional.

Nota solta 7:

Gayness: transnational culture par excellence...