domingo, 27 de maio de 2012

Serendipity. Small world.



Acordei com planos de ir a Jerusalém Leste. A ideia? Começar a procurar lugares, ainda do lado de cá do West Bank / dos Territórios, onde poder contactar mais de perto com a comunidade árabe. Estava mesmo para sair quando a C me liga convidando para um café. Mora no mesmo bairro, caminhada rápida. Em sua casa, além dos filhos, está uma amiga, a Muna, que estuda na nossa universidade. Divertimo-nos a aprender mutuamente árabe e espanhol (e um pouco de português, e de francês...) e conversámos muito sobre o ativismo de ambas, que é de fundo não-sionista e não-divisório, algo raro por aqui. M, apesar de ser cidadã de Israel, nem quer pensar na eventual necessidade de ter de escolher entre estados - "não poderia deixar de ver os meus amigos judeus". Nenhum estado, seria o melhor, pensam ambas - mas essa é assumidamente uma posição utópica, de quem pensa radicalmente. Mas um estado binacional seria, para as minhas novas amigas, a melhor solução. Mas conversar sobre o Conflito é uma coisa. Outra, bem mais importante, é a sensação boa de encontrar gente. E esta entrada inesperada num universo que também inclui os árabes. Serendipity, pois.


Vamos para a parte árabe e predominantemente muçulmana da Cidade Velha, parte da definição "clássica" de Jerusalém Leste. Numa confeitaria comemos uma sobremesa "assassina" à base de queijo de cabra e muuuuito açúcar. Café turco. Ou árabe, como por aqui se diz.


The women and their true colors :-)


Orientalismos à parte - ou não - a Cidade Velha é de facto um labirinto de cores e cheiros. Não me ocorrem mais estereótipos, mas apetece enunciá-los todos. Uma coisa é certa: apetece entrar e não sair para as ruas e céus abertos.


Numa esquina, um vislumbre do dia e outra arquitetura. Indo por ali a Cidade Velha desdobra-se em bairro judeu e em bairro cristão - este um amontoado de igrejas, confissões que vão da igreja grega à arménia, passando por mosteiros etíopes, e mil e uma seitas e denominações. É como se, vista de cima, a cidade velha fosse a única povoação habitável de um planeta árido, onde toda a gente, de todas as etnias e credos se juntasse amontoadamente, com fronteiras subtis e regras de convívio implícitas.


Terminamos o dia em casa de amigas e amigos - uma "comuna feminista", como me é explicado (sem imagens). Pessoas que vão organizar em breve uma conferência e festa queer. Uma delas é norueguesa e antropóloga. Conhecemos pessoas comuns - professores dela, colegas meus. Outra menciona um poema-vídeo de alguém e descobrimos que se trata do mesmo que já linkei, a propósito do Dia de Jerusalém, e que ela e o autor se conhecem. Serendipity. Small world. Gostei muito da atmosfera que reúne pessoas de origens diversas, judeus e árabes, em torno de visões do mundo que, goste-se mais ou menos delas, partem de um "sair da caixa" e das armadilhas do pensamento fundamental(ista). A cidade velha é a metáfora de tudo isto: todos os símbolos de todos os problemas juntos - e todas as soluções também.



The stalker gets stalked :-)








sábado, 26 de maio de 2012

Just another day

E de repente há um dia em que vais na rua, na tua cidade nova, e vais a olhar para o chão, a pensar "nas tuas coisas" e não a olhar para todo o lado. É então que começaste uma relação de intimidade com o sítio, por estranho que pareça. Como nas (outras) relações: o momento da "acomodação" não tem de ser, como muitos pensam (ou pensa o viajante que "ao olhar para o chão" acha que chegou o momento de partir para outra), o fim, mas sim o princípio. Claro que é aí que começa o trabalho, já sem interruptor automático. Começa o laço. Mas não é o trabalho a condição humana?

Jerusalém no shabat. O mais parecido em Portugal até nem é o domingo. Talvez seja, por cómico que pareça, o dia de reflexão antes das eleições:

E não é fotomontagem...
Wisdom

Mob store? (ampliar)

Dia em Tel-Aviv, para brunch com amigos em Yaffo:

Na estação de autocarros, loja chinese especializada em vender porco. Com anúncio também em russo.

Brunch with a bunch

Pequeno-almoço típico dos judeus do Iraque. Yummy, sobretudo o picante laranja.

laranjeira suspensa em Yaffo

Última ceia (ampliar)

Yaffo gentrificando-se

Bears


We liked the music

Regresso a Jerusalém. Pode ser "doida" - religiosa, "ocupada/libertada/reunificada" (contestada), e Tel-Aviv pode ser, e é, cosmopolita, de praia e esplanadas e bicicletas. Mas, por outro lado, e se calhar por causa de inclinações antropológicas, há qualquer coisa em J'lem que é mais intensa. Ou, então, habituado que estou às alienações do consumo e do prazer atraio-me exoticamente pelas alienações da religião, da etnicidade e da política? Não sei. Mas voltei home.

Regressando a Jerusalém. Discussão entre motorista e cliente. Duas jovens vão-me explicando.
Toda a conversa em árabe. No fim, o meu primeiro "shukran" em vez de "todá".








sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dobras, pregas, lençóis

Os antropólogos, e não só, têm a mania de encontrar imagens, metáforas, que denotem bem a natureza das realidades que estudam e facilitem a tradução da complexidade do social. No caso de identidades complexas, ambíguas,  contraditórias, ou até complementares, muitas são as imagens disponíveis: do clássico melting pot estado-unidense à feijoada brasileira, passando pelo calulu caribenho ou pela salad bowl canadiana. Noutros casos, menos multiculti, pode-se falar em camadas de bolo, em fatias de pizza, em smorgasbord, em tanta coisa... Já dei por mim a pensar qual seria a imagem apropriada para descrever a configuração portuguesa, bem bizarra, porque mistura uma ideia de não-racismo com uma consciência de que isso é um mito e a situação das comunidades imigrantes em Portugal. Nenhuma imagem de mistura (salada russa? caldeirada?) seria correta, porque seria enganadora; e imagens de separação hierárquica - bolo de noiva? - também não seriam as mais acertadas. Por outro lado, esta coisa das imagens parece seguir sempre motivos gastronómicos - que denotam comensalidade, partilha - o que não me parece adequado para certos contextos ou para transmitir certas ideias. Aqui, onde estou agora, vão-me ocorrendo várias imagenss, mas todas elas me parecem ou piedosas, ou tolas, ouingénuas, ou cruéis, ou separadoras de mais ou demagogicamente multiculti.

De repente dei por mim a sair da caixa simbólica da comida, e também a sair da caixa conceptual do (multi)culti. Pensar mais na unidade na adversidade do que na unidade na diversidade. Ocorreu-me primeiro a expressão inglesa "folds". Dobras, ou pregas. Não sei porquê. Imediatamente pensei em lençóis, mais ainda do que em tecidos (a imagem da tecitura também é muito usada na ciência social e parece-me errónea, demasiado estruturante e coesa). Um lençol é um pedaço de pano, único. Um lençol puxa-se para um lado ou para o outro, tapando e destapando. Um lençol suja-se e lava-se e gasta-se. Um lençol faz dobras e pregas, como se os sentidos se invertessem, se redobrassem sobre si próprios, se desafiassem, não sem que possam tornar a alisar-se (mas sempre com um resto visível da prega). Lençóis, dobras, pregas - é o que me ocorre e ainda não percebi bem porquê, mas parece-me promissor ;)

(Adenda: esqueci uma palavra - vinco(s))

Negros e judeus - e vice-versa


No mesmo local da manifestação referida no post abaixo, está a tenda de um grupo de ativistas judeus-etiopes contra o que sentem ser a sua discriminação. Estão ali depois de, no principio do mês, terem estado acampados numa rotunda bem visível pelo trânsito da cidade. Mas este é exatamente o mesmo local onde há dois anos encontrei a tenda de solidariedade com Galit Shalit, o soldado israelense que esteve preso 5 anos pelo Hamas e que foi recentemente libertado em troca de mil prisioneiros palestinianos. A jovem ativista a quem me dirigi para falar, Carnyia - porta de entrada para uma primeira entrevista a sério com colegas seus daqui a dias, ensaiando já modos de fazer trabalho de campo aqui - diz que o próprio Galit já visitou a tenda etíope e manifestou a sua solidariedade. De um ponto de vista totalmente impressionista (e por causa de questões de fenótipo) é de facto muito comum ver judeus etíopes em trabalhos de limpeza ou de seguranças á porta de edifícios e os números oficiais apontam para muito insucesso escolar, desemprego e condições de habitação deficitárias.

Também a este propósito ler artigo na 972.

"Cancro"


Uma manifestação contra os ataques de ontem, em Tel-Aviv, a imigrantes e refugiados africanos. Em frente à casa do Primeiro-Ministro. Os ataques de Tel-Aviv contaram com a participação de um membro do parlamento, da extrema-direita, que inclusive acusou os africanos de serem um "cancro" na sociedade. Ah, como a antropologia nos ensina que andamos todos ao mesmo... Na manifestação, convocada em cima da hora e pelo facebook, estavam sobretudo jovens. A presença de algumas bandeiras de partidos provocou alguma polémica (a verde é do Meretz, provavelmente o partido com que eu simpatizaria se fosse cidadão aqui).





Para completar: excelente reportagem foto-videográfica na muito interessante revista online 972mag.com - Independent Commentary and Report on Israel and Palestine.

Sons

Ao longe (ouvir com volume bem alto), chamada muçulmana para oração, seguida de ambulância, seguida de sinos de igreja cristã. (Só mesmo o judaísmo não faz soundscape :-) ):



Na minha rua, pequeno negócio de carrinha recolhendo móveis e eletrodomésticos usados:



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fantasmas, monstros, e outras criaturas


Em qualquer sociedade ou situação social funcionamos em redes e estas têm e estabelecem fronteiras. Aqui, nesta situação de professor visitante, na universidade, no bairro em que vivo, com as pessoas que vou conhecendo, torna-se evidente a dificuldade em conhecer, por exemplo, pessoas árabes. Elas estão aí: na minha aula, nos corredores da universidade, nas ruas, nas lojas. Mas elas não chegam a mim e eu não chego a elas “naturalmente”, em bola de neve, só através de um esforço propositado – procurando-as aqui, ou indo a Jerusalém Leste, ou indo aos territórios ocupados. Não é muito diferente da distância de classes, ou étnica, em Portugal. Mas é exagerado, dada a situação d’ O Conflito. E diz muito sobre a situação local – sobre a sua semelhança com qualquer outro contexto, mas sobre a especificidade, a intensidade acrescida que torna este contexto (mais) rico. Este simples (?) facto, o da dificuldade em encontrar certo tipo de pessoas ou a possibilidade de ficar numa bolha, faz-me pensar nas contradições fundamentais que estruturam a vida social aqui.

Qualquer sociedade é feita de contradições. Dinâmicas, todas elas, entrópicas algumas. Não há a mínima dúvida de que, seja de um ponto de vista das representações locais, seja do ponto de vista das perceções externas, a contradição fundamental aqui é o Conflito. Ele estrutura a política externa, as políticas internas de Israel e Palestina, e as vidas das pessoas. Se em todo o lado há fantasmas, a verdade é que em muitas sociedades (veja-se Portugal) os fantasmas ficam no armário ou na cave. Aqui eles assombram as casas, por assim dizer. Não há quem, israelense ou palestiniano, não tenha fantasmas vivos – vindos do passado mais distante (da shoah, dos pogroms, da nakba) ou do passado das biografias concretas (familiares ou amigos mortos nas guerras, nos atentados, nas intervenções militares).

O problema fundamental é como um estado, este estado, foi construído com base nos ideais modernos do estado-nação, para refúgio de um povo perseguido – que de qualquer modo oscilava entre uma autodefiniçãoo étnica abrangente ou estritamente confessional –  só que num território onde, desde o exílio judeu, entretanto se estabelecera um povo tornado autóctone. E o facto de tal ter acontecido no período colonial e da “passagem de testemunho” de uma potência imperial pré-moderna (os Otomanos) para uma potência colonial propriamente dita moderna (os Ingleses). A mistura e contradição entre novo estado-nação e situação “de tipo colonial” (para distinguir dos colonialismos propriamente ditos, perpetrados por estados-nação pré-existentes à colonização) está na raiz da especificidade do Conflito.

Mas dentro da sociedade israelense vamos encontrar outras contradições, internas (se bem que se articulem com a maior). Há-as de natureza por assim dizer étnica (e fruto quer do sionismo, quer da formação do estado, quer das sucessivas migrações quer, sobretudo, de uma crescente etnicização, típica aliás em todo o mundo). A principal talvez seja a que opõe ashkenazis a sefarditas, as pessoas originárias do centro e leste da Europa e as originárias do Mediterrâneo e do Oriente. A expressão Sefardita engana um pouco: referindo especificamente os judeus oriundos da Península Ibérica, que depois se estabeleceram no Norte de África, ela recobre, algo erroneamente, um grupo mais específico, os Mizrahi, judeus do Oriente propriamente dito, dos países árabes, em suma judeus de cultura árabe e com uma experiência histórica não-Europeia. Maioritários demograficamente até há pouco, foram sempre minoritários na influência no Estado, construído a partir de ideias e conceitos tipicamente europeus pelos Ashkenazi. A discriminação e diferença ao nível das oportunidades entre as duas estirpes têm sido flagrantes.

A esta divisória acresce o efeito da chegada de centenas de milhares de russos no período subsequente à Perestroika. O projeto tipicamente nacionalista, de construção de um estado-nação moderno, laico, e com utopia de progresso, trazido pelos Ashkenazi, foi temperado e, depois, posto em causa, quer pela diversa experiência cultural dos Mizrahi, quer pelo conservadorismo de que os russos são acusados pelos setores mais liberais... As diferentes origens nacionais do judeus de Israel, e os diferentes períodos da sua chegada, dão conta de alterações quer na política do Conflito, quer na política interna do modelo de organização da sociedade, quer nas “guerras culturais” da sociedade –o crescimento da influência conservadora religiosa tem maior apoio entre os “orientais” e as posturas de direita, nomeadamente na política relativa ao conflito, devem algum do seu crescimento à influência russa na política nacional.

A isto poder-se-ia acrescentar pelo menos duas outras contradições. A mais fundamental é a que diz respeito à incorporação – e sua falha – dos árabes com cidadania israelita, que, sejam muçulmanos ou cristãos ou mesmo druzos, vivem naturalmente numa ambiguidade entre a sua pertença política e a sua lealdade cultural, sobretudo face aos seus parentes nos territórios. A outra seria a que foi introduzida pela vinda dos judeus etíopes e pela introdução de uma variável “racial”, pela visibilidade fenotípica, e de uma diferença cultural mais radical do que a constituída pelas diferentes origens regionais dos judeus chegados antes. É óbvia a subalternidade deste na sociedade, como o é a dos árabes, sobretudo a dos palestinianos que aqui trabalham.

Uma outra ordem de contradições decorre da mistura entre a natureza do estado e as dinâmicas identitárias das sociedades contemporâneas. A divisão entre setores mais conservadores e setores mais liberais dá-se, como no resto do ocidente, entre, por um lado, visões mais liberais da economia e visões mais social-democratas e, por outro, entre visões mais conservadoras nos costumes e outras mais liberais. No caso de Israel estas tensões estão presentes desde o início, na oposição entre um sionismo socialista e um sionismo religioso ou tradicionalista. Elas agravam-se com a oposição entre secularismo e religião e refletem-se não só em diferentes perspetivas sobre o Conflito, como em diferentes perspetivas sobre direitos cívicos e liberdades individuais. No campo do género, a segregação por sexo entre as camadas mais religiosas, que tentam impor a sua visão à organização da vida social, choca com o igualitarismo de género entre as camadas seculares; o mesmo se pode dizer em relação às questões de sexualidade, nomeadamente LGBT. Como muitas outras sociedades desenvolvidas, a imigração e o refúgio constituem também um “problema social”, como se tem notado nas reações negativas pelos setores mais conservadores à chegada de imigrantes do sul do Sudão ou da Eritreia – diferenciados quer da imigração filipina para apoio domiciliário dos idosos, ou de diferentes vagas de aliyah por parte de diferentes populações, como os judeus etíopes.

Todos estes níveis de contradição atravessam as divisões de classe ou estatuto socioeconómico ou diferentes tipos de capital simbólico, e tendem também a organizar-se em aglomerações geograficamente distintas, resultantes em ambientes sociais bem diversos – a “bolha” secular e cosmopolita de Tel-Aviv, a religiosidade crescente de Jerusalém, o caráter mais hibridizado de judeus e árabes de Haifa, os colonatos nos territórios ocupados ou os próprios territórios ocupados, onde a frágil e pequena jurisdição da Autoridade Palestiniana ombreia com a jurisdição de exceção, típica de uma ocupação militar, do resto do que poderá vir a ser o estado palestiniano.

Por fim, Israel é ainda o lugar de três outros fenómenos: lugar de peregrinações e migrações várias baseadas quer na visitação por parte de judeus da Diáspora, quer por parte de fiéis de outras religiões, especialmente cristãos, que definem o lugar como “Terra Santa”; lugar imaginário de uma crescente diferenciação entre ser judeu da diáspora ou judeu de Israel; e lugar icónico das próprias contradições da modernidade, lugar em relação ao qual (desde a questão do antissemitismo, até à questão da solidariedade com a Palestina, passando pelas posturas face ao(s) sionismo(s)) todo o mundo tem uma opinião e todo o mundo usa como instrumento de posicionamento ideológico.

É óbvio que Israel é uma especificidade. Não é nem um estado-nação do tipo dos que se formaram na Europa no século XIX, nem uma situação colonial propriamente dita, nem sequer uma autonomização de raiz europeia num contexto colonial, como o foi a África do Sul. É outra coisa, única. Assim como a Palestina constitui uma situação única. A situação em que vivem os árabes em Israel/Palestina é insustentável (a não ser que se aceite cinicamente um status quo como o atual, em que as pessoas vivem nos interstícios da anormalidade ou mesmo às cavalitas dela) e os israelenses sabem-no também, posicionando-se, aliás, de formas muito diferenciadas face à questão. Todas as contradições dinâmicas e/ou entrópicas da sociedade israelense dependem, de alguma forma, da resolução do Conflito. Mas, num plano que não pode deixar de ser moral, quem precisa mais urgentemente de uma solução são os próprios palestinianos. E que soluções surgem no cenário? Num extremo, e de um lado e do outro, os fanáticos que pensam as coisas em termos de legitimidade e autenticidade e que, por isso, só podem pensar na expulsão e no extermínio do Outro. No outro extremo, a minoria racionalista e liberal, sobretudo intelectual, que sonha com a utopia de um estado único, laico, de uma pessoa, um voto. No meio, a solução que está na mesa, a dos dois estados, com cidadanias diferenciadas mas, naturalmente, continuando e aprofundando uma economia integrada. Esta solução, que é a dos Acordos, está a ser sistematicamente posta em causa ou impedida, quer por razões de política interna em ambos os lados, quer por causa da questão dos colonatos judeus nos Territórios, quer pela do direito de regresso dos exilados e refugiados palestinianos, quer ainda pela geopolítica regional. Faltando a verdadeira autonomia à sociedade palestiniana para que se possa também aí identificar as suas contradições dinâmicas ou entrópicas (de classe, de religião, de experiência diaspórica, de género, de ideologia) certo é que o Conflito, mais do que um fantasma, é um monstro presente, e só a sua resolução poderá levar a que as outras contradições se vão resolvendo “apenas” com os fantasmas que todos temos.  Israel e Palestina são a epítome, empolada e exagerada até ao nível do trágico, das contradições da modernidade e, agora, da modernidade tardia. Por isso, sendo a sociedade deste território “igual às outras”, ela é “mais igual do que as outras”. É aqui que tudo pode ser pensado.

Disclaimer para lá (ou não...) do realismo antropológico: Eu gosto de Israel e da sua democracia. Eu defendo a existência do estado de Israel. Eu gostaria de um estado de Israel mais laico e de uma política oficial israelense não dominada pelo sionismo de direita. Eu estou certo de que gostarei da Palestina, sou solidário com o sofrimento palestiniano e reconheço que, no momento em que escrevo, a situação palestiniana não é simétrica da israelita, mas pior. Eu defendo o realismo histórico e sociológico: as pessoas existem aqui, são daqui, aqui ficarão. Isso aplica-se a Israel e deve aplicar-se à Palestina e ao direito que os dois povos têm a Estados viáveis e seguros.

Nota: prefiro a norma brasileira de “israelense” para referir o que é de Israel, e “israelita” como sinónimo de judeu. O uso de “israelita” para ambas as coisas no português de Portugal parece-me erróneo.