quarta-feira, 16 de maio de 2012

As I lay me down


1. A turma que leciono, com 16 inscritos, tem uma americana, duas pessoas brasileiras (também israelitas) e duas árabes, sendo as outras judias israelitas das mais diferentes origens. E toda a gente sorri quando falo de narrativas nacionalistas, de colonialismos, de identidades complexas ou contraditórias. Sabe bem. Cansado, mas bem cansado, não há como descansar na relva no meio de uma primavera esplêndida. Até que a americanada começa a festa, tal qual como no ISCTE em tempos de fim de ano letivo.


As I lay me down...

...and as they wake me up

2. Os corredores da Universidade Hebraica de Jerusalém têm uma curiosa característica, que se vê muito nos EUA também, mas que aqui está blown out of proportion. Cada edifício, cada corredor, cada sala maior, anfiteatro, cafeteria, you name it, tem uma dedicatória indicando em grandes e visíveis letras quem foram os beneméritos. São nomes de pessoas e famílias um pouco de todo o mundo, mas predominando os EUA. Está lá Barbra Streisand, pois claro :-) Os mais preconceituosos diriam logo: "ah, ha, o lobby judeu". Esta expressão contém insinuações  e sentidos antigos que não podem ser tomados inocentemente, invocando teorias da conspiração próprias dos discursos antisemitas. Se pensarmos bem, qual o problema de um "lobby", no sentido de pessoas que se identificam com uma causa, neste caso o sionismo? Outra discussão bem diferente seria a discussão sobre este, claro (mesmo assim diverso nas suas manifestações, da vertente socialista à vertente hipernacionalista), mas ela não é nem nunca foi a que o antisemitismo diz ser ("a conspiração internacional"). Mas o facto em si mesmo de estas pessoas se mobilizarem para contribuir financeiramente para uma universidade, e de quererem o reconhecimento do seu gesto, é apenas estranha para quem vem de um país como o meu onde nunca acontece nada disto, 2 ou 3 fundações à parte. [Dei por mim a fantasiar na relva: tivessem as circunstâncias históricas e culturais proporcionado aos ciganos a sedentarização da sua atividade comercial, e tivessem eles professado uma religião baseada na cultura escrita e na especulação intelectual e, na sequência dos nacionalismos do século XIX, certamente teríamos hoje um estado cigano algures no Norte da Índia, com contributos da diáspora cigana, e provavelmente com um conflito com indianos desapossados de casa, terra e autonomia...)


3. Converso com o meu amigo Or, que já conhecia de 2010. Trocamos ideias sobre as minhas hipóteses de pesquisa aqui, ainda tão vagas, ainda tão à espera da surpresa, da epifania, do fio de novelo para desenrolar, da bola de neve. Explico-lhe como me interessam identidades contraditórias, ambíguas, e assim. Praticamente nesse momento encontramos no elevador um estudante de pós-graduação, apressado e excitado, que vai a correr para a TV para contrariar declarações homofóbicas de alguém ligado à Câmara Municipal. Fico a saber que este ativista cresceu na tradição Haredi, ultra-ortodoxa, tendo saído dela certamente ao assumir-se como gay. Aí está uma identidade em movimentos complexos.







terça-feira, 15 de maio de 2012

Ao longe o deserto


Visão - e som - de túnel



No campus as flores, ao longe o deserto.












Interpretação de Geografia desde o Monte Scopus


O meu colega J leva-me a um miradouro na universidade para observar a "geografia política". "Ali, á direita, onde vês manchas verdes na paisagem seca, são colonatos".











"Aqui em frente, onde as casas e os prédios são mais de construção livre, é um bairro árabe, de árabes com autorização de residência em Jerusalém"    











"Atrás, podes ver um pedaço do muro de separação. Separa um bairro palestiniano, na Palestina, de Jerusalém em geral e também deste bairro de residentes árabes."










"E ali, mais à esquerda, entre a linha da frente e as torres, um bairro mais urbanizado e planeado, certamente um bairro de maioria judia."








PS: Hanan Ashrawi no jornal israelita Ha'aretz de hoje, dia da Nakba.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Let me give you the sky


Rehov Karmon (Bet Hakerem)
Esta é a minha rua. Estava à espera que chegasse C, a colega que me levou no tour das burocracias a tratar. No r/c mora uma senhora que se passeia lentamente pelo seu quintal observando as folhas e os gatos. No meio do logradouro do prédio está uma nespereira. E à frente do prédio, muitas vezes as cores da vegetação, a própria vegetação, fazem lembrar o interior do Algarve. Só uma espécie de bege, cor de terra clara, que predomina nos edifícios, faz pensar mais no Médio Oriente do que no... extremo ocidente. A senhora calça crocs, veste umas calças largas e uma t-shirt, e/mas tem à cabeça um lenço, longo atrás, à maneira das judias "do Oriente", isto é, originárias dos países árabes. Um pouco "off", talvez, veio ter comigo, apertou-me as mãos e juro que ouvi dizer-me que "nos amava". Ela? Deus? A que "nós"? Não sei. C chegou de carro e levou-me para a universidade. Começámos pela administração, onde mostrei a carta de convite e me foi dado um papel para levar para o gabinete de segurança. No gabinete de segurança emitiram-me um cartão de livre acesso. As funcionárias comiam salada de arroz frio, vegetais e atum. Daí para a biblioteca, mais um cartão. Depois para o secretariado do Departamento de Românicas e Estudos Latino-Americanos para me ser atribuído um gabinete; de seguida para a secção de computadores, para passwords, e daí de carro para o outro campus, o de Givat Ram, para assinar o contrato do apartamento. Mais tarde voltaria lá sozinho para obter o cartão de acesso ao ginásio. Tudo decorreu com facilidade, rapidez, e uma boa-educação q.b., por vezes com uma dose de frontalidade que os mais sensíveis poderão entender como rudeza, mas que me parece ter mais a ver com uma cultura que ainda guarda traços do igualitarismo dos tempos pioneiros da fundação do estado. Traços que ficam, apesar dos tempos e dos eventos. Uma universidade é uma universidade, mas nem por isso o ambiente é menos relaxado. Salamaleques, nenhuns. Mais tarde, na rua, em torno da estação central de autocarros, a balbúrdia humana, ela sim sem salamaleques mesmo, sem filas para nada, colorida, variada. Para o observador "branco" e estrangeiro, o que salta à vista, o que parece "destoar" das semelhanças, são os e as ultrareligiosos/as, os e as orientais, os judeus e as judias etíopes e, claro, esse ícone do Israel consumido lá fora que são as jovens e os jovens soldados, passeando com a mesma atitude que teriam num shopping ou numa esplanada de café mas por acaso fardados/as. Ainda trato de um cartão de telemóvel local e, depois de ter descido a Jaffa Road, com um intervalo para café numa esplanada de "alternativos" (onde o empregado me diz "let me give you the sky" ao fechar o guarda-sol) apanho o elétrico de volta para o meu bairro, Bet Hakerem, e vou ao supermercado. Ao lado da caixa, estirado sobre umas sacas, um jovem fala árabe com alguém que passa. Faz lembrar uma figura de Pasolini, lânguido, de t-shirt subida, acariciando a barriga. Sorrio-lhe ao sair. Ele pisca-me o olho...

Rehov Yaffo (Jaffa Road)

C é de origem argentina, está na casa dos trinta, tem dois filhos pequenos e é divorciada. No nosso "tour" pela universidade confessa saudades de ser estudante, ao ver que é dia de eleições para a associação. Explica-me quem são os candidatos. "Os azuis são trabalhistas - mas eles não são nada trabalhistas... os vermelhos são da esquerda radical... os amarelos são do novo partido de jovens que querem melhorar Jerusalém". Mais tarde queixar-se-ia deles, de como não mostram vontade de integrar mais árabes. Queixa que se estende a mais movimentos sociais - de que eles são um segmento - do tipo dos que têm aparecido  nos últimos tempos no resto do mundo. C considera-se uma ativista e uma feminista (e fala-me dos seus amigos envolvidos em questões queer e da conferência e festa para as quais não se esquecerá de me convidar) e não gosta que tantos ativistas insistam em dizer que "não são políticos". "Não querem é tomar posição sobre o conflito, porque têm opiniões diferentes". Para C o conflito é já insuportável e aponta às lideranças políticas israelitas e palestinianas a pouca vontade de avançar com soluções. Segundo ela as mudanças económicas, o discurso neoliberal dominante, o "fim" da política levam a uma situação em que as partes (as suas lideranças) parecem preferir o status quo, a situação de facto. Eu pergunto-me se, ironicamente, não acabará por ser justamente isto a criar a "solução", numa espécie de dois estados formais mas em total integração económica e de circulação de pessoas (a primeira já existe, a segunda não), em vez da solução dos dois estados (com uma inviabilidade prática do palestiniano) ou da de um estado binacional (com o esmagamento demográfico dos judeus)... Para C as coisas são claras: demasiadas décadas de conflito e a necessidade absoluta de os palestinianos poderem ter uma vida digna e decente.

Na rua, a medalha de honra do turista: 3-pessoas-3 perguntam-me direções em hebraico (e, num caso desconcertante, em... russo)!


domingo, 13 de maio de 2012

Road map needed

Cheguei a Jerusalém com o raiar do sol. Instalado no apartamento, e depois de dormir umas horas, fui à procura de um supermercado (onde a senhora da caixa me pergunta se vim em trabalho ou em aliyah). Regresso a casa e sinto a ansiedade típica do estudante antes do exame - esqueci tudo! Refresco a memória buscando termos, definições, artigos soltos sobre. Sobre o quê? Sobre a floresta de termos, identidades, designações - e tantas vezes com várias versões, segundo posicionamentos - que pululam na paisagem político-identitária de israel/palestina. Ora vejam (e a lista está curta): israel ou grande israel, palestina, territórios ocupados ou judeia e samaria ou margem ocidental, autoridade palestiniana, refugiados palestinianos, present absentees, palestinianos de jerusalém com direito de residência, direito de retorno, árabes israelitas ou palestinianos de cidadania israelita, asquenazis versus sefarditas/mizrahim, mizrahim propriamente ditos, e os judeus da Etiópia, os árabes cristãos e os árabes muçulmanos, para não falar dos druzos, para não falar dos beduínos, as divisões entre seculares e religiosos, e entre estes os ortodoxos e os ultra-ortodoxos haredim, e as muitas origens étnicas entre os israelitas ou as múltiplas filiações político-ideológicas quer entre israelitas, judeus ou não, quer entre palestinianos. Junte-se a isto as clivagens que qualquer sociedade tem por classe, género, sexualidade, etc., e pode ter-se uma ideia da teia complexa. Não esquecendo ainda de se lhe juntar uma história acelerada, com eventos políticos e militares que em pouco mais de meio século foram sistematicamente mudando fronteiras, estabelecendo libertações e ocupações, meias-soberanias, vigilâncias e controlos, muros (ah, também estes são nomeados de modo diferente consoante quem fala), ensaios de paz e violências muitas - mas também cidadanias e movimentos e associativismos vigorosos, gente de vários e entrecruzados "lados" ensaiando plataformas, denunciando, vigiando, para lá da espera pelas grandes soluções nacionais definitivas - a aniquilação mútua dos loucos, os dois estados, o estado binacional ou federal. Vindo de portugal, onde o trabalho dos séculos plasmou conflitos e diferenças numa ilusória semelhança, aqui é mesmo preciso um road map. Pun intended

sexta-feira, 11 de maio de 2012

As minas, o equipamento antiminas, a desminagem, e as minas que ainda ficam

Avançar para um projeto em Israel/Palestina é avançar para e por terreno minado. As minas começam na linguagem. Escolho, como alguns outros, esta designação (i/p) porque considero igualmente válidas as reivindicações de legitimidade dos diferentes projetos - nacionais, estatais, identitários, comunitários, de libertação, etc. "Válidas" não se refere aos ideários políticos e às estratégias para os atingir (os projetos de uma extrema-direita nacionalista em israel ou os de um Hamas ou Hezbollah repelem-me). Refere-se, antropologicamente, à crença e à convicção de quem os defende e com eles constrói identidade. Mas mesmo com esta postura, o terreno não se desmina. Entrar "por Israel" - pelas suas instituições, ou por redes sociais de lá - ou entrar "pela Palestina" marca logo divisórias: corre-se o risco de se ser mal visto do lado oposto. Corre-se também o risco de se ser vigiado e catalogado e desafiado pelo espírito dicotómico absoluto que domina grande parte das opiniões sobre aquele terreno. Provavelmente tanto (e às vezes mais) cá e no resto do mundo do que lá. Israel/Palestina tornou-se num símbolo, num drama, num veículo, num ventríloquo para falar de posições ideológicas, visões do mundo, preconceitos, e utopias. Além de ser provavelmente a epítome das contradições da modernidade (e daí ser um terreno tão fascinante e desafiador) e dos seus projetos estatais, nacionais, étnicos, religiosos, territoriais, etc.

E lá as pessoas, de "um lado" ou "do outro" vivem sobredeterminadas pelo conflito israelo-palestiniano. Neste quadro seria de esperar que um antropólogo avançando por aquele terreno também partilhasse de tudo isto, ou por tudo isto fosse marcado à partida. Isso é mais ou menos inescapável (estaria a escrever isto se assim não fosse?), mas o potencial da ciência, o da ciência social em particular, e o da antropologia em particular, está em romper com o senso-comum, com as categorias recebidas, e promover a suspensão dos automatismos do pensamento e da classificação. É isso que quero fazer, mesmo não sabendo se o conseguirei. Não quero que a formatação do meu possível futuro trabalho de pesquisa seja passivamente escrava dessa sobredeterminação. Prefiro imaginar a possibilidade de, em vez de começar "por cima" - pelos termos do debate sobre o conflito, pelas instituições políticas, pelos ativismo - começar "por baixo", isto é, pelas pessoas "banais" que vivem com e apesar da sobredeterminação do conflito e das narrativas e discursos em seu torno. Colegas, leitores, pessoas cá e pessoas lá em ambos "os lados" tenderão a perguntar, a suspeitar (ou até a tirar conclusões abusivas a partir de pedaços soltos de informação) sobre "de que lado estou". E a isso respondo que os termos da pergunta estão a meu ver errados. E a isso procurarei responder explorando a diversidade e multiplicidade de "lados" em cada um dos "lados", procurando as identidades complexas, ambíguas e contraditórias que necessariamente existem em virtude das várias pertenças e diferenças por ideologia, género, classe, etnicidade, religião, sexualidade, etc - na infinita variedade de narrativas pessoais e histórias de vida singulares. Desarticuladas da tal "sobredeterminação"? Claro que não. E numa perspetiva que elida o desequilíbrio de forças, as injustiças, as crueldades? Claro que não. Sempre fiz uma antropologia engajada e continuo a crer que os mais fracos têm menos voz. Mas as fraquezas identificadas nas vidas concretas, devidas a variáveis bem mais complexas do que as da dicotomia, são ainda mais difíceis de identificar, e pedem mais voz, do que o grande chapéu-de-chuva da desigualdade local.

Ir para um terreno como Israel/Palestina reproduzir simplesmente as tomadas de posição globalizantes sobre quem tem razão seria pobre, e do ponto de vista de um trabalho antropológico seria mesmo patético. Ir mais fundo do que o discurso dominante significa sair dos limites da sua enunciação. Significa assumir uma postura realista, dizendo: aqui vive gente; e esta gente é mais rica do que as etiquetas e tem mais vida do que o conflito e a narrativa global a que deu azo. E significa pegar nos problemas das "minas" pelos cornos, como objeto de reflexão ele mesmo. Não, não me perguntem "de que lado estou". Perguntem-me o que penso sobre a invasão do Líbano, o caso da flotilha, ou um ataque terrorista a um autocarro e eu direi o que acho - direi como sou contra o terror dos estados e o terror dos movimentos de libertação. Como direi que sou a favor de soluções que garantam a autodeterminação e a dignidade a israelitas e palestinianos, como sou a favor da laicidade e da democracia, como sou a favor de mais igualdade económica e social. Como direi que sei haver pessoas, de "um lado" e "do outro" que pensam o mesmo, e todas elas sabendo que, se por um lado o desequilíbrio de forças é muito grande, por outro as ameaças percecionadas por cada "lado" são de natureza diferente.

Que seja necessário este relambório, que eu sinta necessidade de escrever este chorrilho de pensamentos mais ou menos caóticos, é em si mesmo um sinal da especificidade, da densidade, da intensidade daquele terreno - sobretudo para quem lá vive, mas também para o resto do mundo que vive israel/palestina como um dos principais problemas não-resolvidos e um recurso narrativo e de posicionamentos "para lá" do próprio lugar. Contornar as minas, as armadilhas da linguagem, da acusação, da manipulação, da sedução, do pré-juízo, começa e acaba com a busca de outras linguagens, de outros termos em que as questões sejam colocadas, num difícil equilíbrio entre isto e o reconhecimento da referida sobredeterminação e a confrontação com a visibilidade dos dramas e injustiças. Mas quem disse que a ciência era fácil, sobretudo se humana, marcada pelo pensamento crítico e aberta às vozes múltiplas e concretas de pessoas concretas?

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Este ano em Jerusalém

Jerusalém, Dezembro 2010 (foto: MVA)

Regresso agora a Jerusalém, depois de uma primeira visita no Natal de 2010. 
A partir de 12 de maio e durante um mês, 
uma primeira estadia de prospeção para uma pesquisa em construção. 
Construção que este blog vai acompanhar.