segunda-feira, 28 de maio de 2012

Arrumando ideias (sempre)

(a propósito dos muitos e variados posicionamentos que vou testemunhando, não na pobre discussão mediática internacional sobre o "médio oriente", mas junto de gente concreta e aqui)

Não gosto, por princípio, de discursos e retóricas nacionalistas. Mas compreendo-os - e às emoções que os corporizam - como estratégias de alteridade ou de fuga à subalternidade em certos contextos e conjunturas (um nacionalismo fascista não será o mesmo que um nacionalismo de movimento de libertação. Acho). Se fizesse disto uma questão de princípio, absoluto, a única coisa coerente a dizer seria que recuso a retórica nacionalista isaraelense e igualmente a palestiniana (ou: aceito ambas). Isto levaria a uma neutralidade demissionária, que é o que acontece quando se quer ser formalmente coerente. Como antropólogo, tento perceber, nos seus próprios termos, o afeto e a energia e o sentido que as pessoas, em grupo, investem nestas identificações (e sabendo que o fazem sempre em posições de poder(es) relativo(s)). Neste plano, ambos os nacionalismo são válidos. Como "resolver" isto? Recusando uma aproximação baseada apenas na lógica e na coerência, e pensando ética e politicamente - reformulando a questão do nacionalismo noutra, por exemplo justiça ou direitos humanos. Assim, a situação em que vive a maioria dos palestinianos deve ser vista como iníqua e insustentável. É ela o elo mais fraco, que precisa com mais urgência de ser resolvido. A sua solução passa, para a maioria das pessoas, pela satisfação da sua aspiração identitária nacional - o fim das políticas de ocupação, discriminação e securitárias não seria suficiente e não se daria sem a resolução da questão nacional. Mas "apenas" com uma condição, sem a qual todo o edifício ético da coisa se desmoronaria: que a sustentabilidade da identidade nacional israelense seja assegurada. Os que gostariam de fazer tudo de novo, que sonham com tábuas rasas, que gostariam que isto ou aquilo não tivesse acontecido no passado, não só demonstram irracionalidade, como desprezo pelas "condições realmente existentes" - pessoas concretas vivendo vidas (e com entes queridos mortos, dos dois lados), e não abstrações. O objetivo da satisfação das aspirações nacionais palestinianas e a garantia do adquirido nacional israelense é condição fundamental para se poder pensar, então, para lá do nacionalismo: como já se faz em Israel (onde se encontra desde sionistas de direita até judeus israelenses antisionistas) e como se faz na Palestina (basta pensar no fosso ideológico e de programa político entre o Hamas em Gaza e a Autoridade Palestiniana em Ramallah).

(Pensar numa situação concreta como esta é também um exercício que desafia a inteligência: não se pode ver isto com lentes criada para ler outros textos, nem com analogias que transportam para aqui significados de outros tempos e sítios. Mas isso é outra conversa, para outra altura, sobre o uso abusivo - não só intelectualmente, mas com consequências práticas nos afetos investidos - da analogia do apartheid ou do colonialismo, ou de ideias feitas de fundo islamofóbico, orientalista, ou antisemita).

domingo, 27 de maio de 2012

Serendipity. Small world.



Acordei com planos de ir a Jerusalém Leste. A ideia? Começar a procurar lugares, ainda do lado de cá do West Bank / dos Territórios, onde poder contactar mais de perto com a comunidade árabe. Estava mesmo para sair quando a C me liga convidando para um café. Mora no mesmo bairro, caminhada rápida. Em sua casa, além dos filhos, está uma amiga, a Muna, que estuda na nossa universidade. Divertimo-nos a aprender mutuamente árabe e espanhol (e um pouco de português, e de francês...) e conversámos muito sobre o ativismo de ambas, que é de fundo não-sionista e não-divisório, algo raro por aqui. M, apesar de ser cidadã de Israel, nem quer pensar na eventual necessidade de ter de escolher entre estados - "não poderia deixar de ver os meus amigos judeus". Nenhum estado, seria o melhor, pensam ambas - mas essa é assumidamente uma posição utópica, de quem pensa radicalmente. Mas um estado binacional seria, para as minhas novas amigas, a melhor solução. Mas conversar sobre o Conflito é uma coisa. Outra, bem mais importante, é a sensação boa de encontrar gente. E esta entrada inesperada num universo que também inclui os árabes. Serendipity, pois.


Vamos para a parte árabe e predominantemente muçulmana da Cidade Velha, parte da definição "clássica" de Jerusalém Leste. Numa confeitaria comemos uma sobremesa "assassina" à base de queijo de cabra e muuuuito açúcar. Café turco. Ou árabe, como por aqui se diz.


The women and their true colors :-)


Orientalismos à parte - ou não - a Cidade Velha é de facto um labirinto de cores e cheiros. Não me ocorrem mais estereótipos, mas apetece enunciá-los todos. Uma coisa é certa: apetece entrar e não sair para as ruas e céus abertos.


Numa esquina, um vislumbre do dia e outra arquitetura. Indo por ali a Cidade Velha desdobra-se em bairro judeu e em bairro cristão - este um amontoado de igrejas, confissões que vão da igreja grega à arménia, passando por mosteiros etíopes, e mil e uma seitas e denominações. É como se, vista de cima, a cidade velha fosse a única povoação habitável de um planeta árido, onde toda a gente, de todas as etnias e credos se juntasse amontoadamente, com fronteiras subtis e regras de convívio implícitas.


Terminamos o dia em casa de amigas e amigos - uma "comuna feminista", como me é explicado (sem imagens). Pessoas que vão organizar em breve uma conferência e festa queer. Uma delas é norueguesa e antropóloga. Conhecemos pessoas comuns - professores dela, colegas meus. Outra menciona um poema-vídeo de alguém e descobrimos que se trata do mesmo que já linkei, a propósito do Dia de Jerusalém, e que ela e o autor se conhecem. Serendipity. Small world. Gostei muito da atmosfera que reúne pessoas de origens diversas, judeus e árabes, em torno de visões do mundo que, goste-se mais ou menos delas, partem de um "sair da caixa" e das armadilhas do pensamento fundamental(ista). A cidade velha é a metáfora de tudo isto: todos os símbolos de todos os problemas juntos - e todas as soluções também.



The stalker gets stalked :-)








sábado, 26 de maio de 2012

Just another day

E de repente há um dia em que vais na rua, na tua cidade nova, e vais a olhar para o chão, a pensar "nas tuas coisas" e não a olhar para todo o lado. É então que começaste uma relação de intimidade com o sítio, por estranho que pareça. Como nas (outras) relações: o momento da "acomodação" não tem de ser, como muitos pensam (ou pensa o viajante que "ao olhar para o chão" acha que chegou o momento de partir para outra), o fim, mas sim o princípio. Claro que é aí que começa o trabalho, já sem interruptor automático. Começa o laço. Mas não é o trabalho a condição humana?

Jerusalém no shabat. O mais parecido em Portugal até nem é o domingo. Talvez seja, por cómico que pareça, o dia de reflexão antes das eleições:

E não é fotomontagem...
Wisdom

Mob store? (ampliar)

Dia em Tel-Aviv, para brunch com amigos em Yaffo:

Na estação de autocarros, loja chinese especializada em vender porco. Com anúncio também em russo.

Brunch with a bunch

Pequeno-almoço típico dos judeus do Iraque. Yummy, sobretudo o picante laranja.

laranjeira suspensa em Yaffo

Última ceia (ampliar)

Yaffo gentrificando-se

Bears


We liked the music

Regresso a Jerusalém. Pode ser "doida" - religiosa, "ocupada/libertada/reunificada" (contestada), e Tel-Aviv pode ser, e é, cosmopolita, de praia e esplanadas e bicicletas. Mas, por outro lado, e se calhar por causa de inclinações antropológicas, há qualquer coisa em J'lem que é mais intensa. Ou, então, habituado que estou às alienações do consumo e do prazer atraio-me exoticamente pelas alienações da religião, da etnicidade e da política? Não sei. Mas voltei home.

Regressando a Jerusalém. Discussão entre motorista e cliente. Duas jovens vão-me explicando.
Toda a conversa em árabe. No fim, o meu primeiro "shukran" em vez de "todá".








sexta-feira, 25 de maio de 2012

Dobras, pregas, lençóis

Os antropólogos, e não só, têm a mania de encontrar imagens, metáforas, que denotem bem a natureza das realidades que estudam e facilitem a tradução da complexidade do social. No caso de identidades complexas, ambíguas,  contraditórias, ou até complementares, muitas são as imagens disponíveis: do clássico melting pot estado-unidense à feijoada brasileira, passando pelo calulu caribenho ou pela salad bowl canadiana. Noutros casos, menos multiculti, pode-se falar em camadas de bolo, em fatias de pizza, em smorgasbord, em tanta coisa... Já dei por mim a pensar qual seria a imagem apropriada para descrever a configuração portuguesa, bem bizarra, porque mistura uma ideia de não-racismo com uma consciência de que isso é um mito e a situação das comunidades imigrantes em Portugal. Nenhuma imagem de mistura (salada russa? caldeirada?) seria correta, porque seria enganadora; e imagens de separação hierárquica - bolo de noiva? - também não seriam as mais acertadas. Por outro lado, esta coisa das imagens parece seguir sempre motivos gastronómicos - que denotam comensalidade, partilha - o que não me parece adequado para certos contextos ou para transmitir certas ideias. Aqui, onde estou agora, vão-me ocorrendo várias imagenss, mas todas elas me parecem ou piedosas, ou tolas, ouingénuas, ou cruéis, ou separadoras de mais ou demagogicamente multiculti.

De repente dei por mim a sair da caixa simbólica da comida, e também a sair da caixa conceptual do (multi)culti. Pensar mais na unidade na adversidade do que na unidade na diversidade. Ocorreu-me primeiro a expressão inglesa "folds". Dobras, ou pregas. Não sei porquê. Imediatamente pensei em lençóis, mais ainda do que em tecidos (a imagem da tecitura também é muito usada na ciência social e parece-me errónea, demasiado estruturante e coesa). Um lençol é um pedaço de pano, único. Um lençol puxa-se para um lado ou para o outro, tapando e destapando. Um lençol suja-se e lava-se e gasta-se. Um lençol faz dobras e pregas, como se os sentidos se invertessem, se redobrassem sobre si próprios, se desafiassem, não sem que possam tornar a alisar-se (mas sempre com um resto visível da prega). Lençóis, dobras, pregas - é o que me ocorre e ainda não percebi bem porquê, mas parece-me promissor ;)

(Adenda: esqueci uma palavra - vinco(s))

Negros e judeus - e vice-versa


No mesmo local da manifestação referida no post abaixo, está a tenda de um grupo de ativistas judeus-etiopes contra o que sentem ser a sua discriminação. Estão ali depois de, no principio do mês, terem estado acampados numa rotunda bem visível pelo trânsito da cidade. Mas este é exatamente o mesmo local onde há dois anos encontrei a tenda de solidariedade com Galit Shalit, o soldado israelense que esteve preso 5 anos pelo Hamas e que foi recentemente libertado em troca de mil prisioneiros palestinianos. A jovem ativista a quem me dirigi para falar, Carnyia - porta de entrada para uma primeira entrevista a sério com colegas seus daqui a dias, ensaiando já modos de fazer trabalho de campo aqui - diz que o próprio Galit já visitou a tenda etíope e manifestou a sua solidariedade. De um ponto de vista totalmente impressionista (e por causa de questões de fenótipo) é de facto muito comum ver judeus etíopes em trabalhos de limpeza ou de seguranças á porta de edifícios e os números oficiais apontam para muito insucesso escolar, desemprego e condições de habitação deficitárias.

Também a este propósito ler artigo na 972.

"Cancro"


Uma manifestação contra os ataques de ontem, em Tel-Aviv, a imigrantes e refugiados africanos. Em frente à casa do Primeiro-Ministro. Os ataques de Tel-Aviv contaram com a participação de um membro do parlamento, da extrema-direita, que inclusive acusou os africanos de serem um "cancro" na sociedade. Ah, como a antropologia nos ensina que andamos todos ao mesmo... Na manifestação, convocada em cima da hora e pelo facebook, estavam sobretudo jovens. A presença de algumas bandeiras de partidos provocou alguma polémica (a verde é do Meretz, provavelmente o partido com que eu simpatizaria se fosse cidadão aqui).





Para completar: excelente reportagem foto-videográfica na muito interessante revista online 972mag.com - Independent Commentary and Report on Israel and Palestine.

Sons

Ao longe (ouvir com volume bem alto), chamada muçulmana para oração, seguida de ambulância, seguida de sinos de igreja cristã. (Só mesmo o judaísmo não faz soundscape :-) ):



Na minha rua, pequeno negócio de carrinha recolhendo móveis e eletrodomésticos usados:



quinta-feira, 24 de maio de 2012

Fantasmas, monstros, e outras criaturas


Em qualquer sociedade ou situação social funcionamos em redes e estas têm e estabelecem fronteiras. Aqui, nesta situação de professor visitante, na universidade, no bairro em que vivo, com as pessoas que vou conhecendo, torna-se evidente a dificuldade em conhecer, por exemplo, pessoas árabes. Elas estão aí: na minha aula, nos corredores da universidade, nas ruas, nas lojas. Mas elas não chegam a mim e eu não chego a elas “naturalmente”, em bola de neve, só através de um esforço propositado – procurando-as aqui, ou indo a Jerusalém Leste, ou indo aos territórios ocupados. Não é muito diferente da distância de classes, ou étnica, em Portugal. Mas é exagerado, dada a situação d’ O Conflito. E diz muito sobre a situação local – sobre a sua semelhança com qualquer outro contexto, mas sobre a especificidade, a intensidade acrescida que torna este contexto (mais) rico. Este simples (?) facto, o da dificuldade em encontrar certo tipo de pessoas ou a possibilidade de ficar numa bolha, faz-me pensar nas contradições fundamentais que estruturam a vida social aqui.

Qualquer sociedade é feita de contradições. Dinâmicas, todas elas, entrópicas algumas. Não há a mínima dúvida de que, seja de um ponto de vista das representações locais, seja do ponto de vista das perceções externas, a contradição fundamental aqui é o Conflito. Ele estrutura a política externa, as políticas internas de Israel e Palestina, e as vidas das pessoas. Se em todo o lado há fantasmas, a verdade é que em muitas sociedades (veja-se Portugal) os fantasmas ficam no armário ou na cave. Aqui eles assombram as casas, por assim dizer. Não há quem, israelense ou palestiniano, não tenha fantasmas vivos – vindos do passado mais distante (da shoah, dos pogroms, da nakba) ou do passado das biografias concretas (familiares ou amigos mortos nas guerras, nos atentados, nas intervenções militares).

O problema fundamental é como um estado, este estado, foi construído com base nos ideais modernos do estado-nação, para refúgio de um povo perseguido – que de qualquer modo oscilava entre uma autodefiniçãoo étnica abrangente ou estritamente confessional –  só que num território onde, desde o exílio judeu, entretanto se estabelecera um povo tornado autóctone. E o facto de tal ter acontecido no período colonial e da “passagem de testemunho” de uma potência imperial pré-moderna (os Otomanos) para uma potência colonial propriamente dita moderna (os Ingleses). A mistura e contradição entre novo estado-nação e situação “de tipo colonial” (para distinguir dos colonialismos propriamente ditos, perpetrados por estados-nação pré-existentes à colonização) está na raiz da especificidade do Conflito.

Mas dentro da sociedade israelense vamos encontrar outras contradições, internas (se bem que se articulem com a maior). Há-as de natureza por assim dizer étnica (e fruto quer do sionismo, quer da formação do estado, quer das sucessivas migrações quer, sobretudo, de uma crescente etnicização, típica aliás em todo o mundo). A principal talvez seja a que opõe ashkenazis a sefarditas, as pessoas originárias do centro e leste da Europa e as originárias do Mediterrâneo e do Oriente. A expressão Sefardita engana um pouco: referindo especificamente os judeus oriundos da Península Ibérica, que depois se estabeleceram no Norte de África, ela recobre, algo erroneamente, um grupo mais específico, os Mizrahi, judeus do Oriente propriamente dito, dos países árabes, em suma judeus de cultura árabe e com uma experiência histórica não-Europeia. Maioritários demograficamente até há pouco, foram sempre minoritários na influência no Estado, construído a partir de ideias e conceitos tipicamente europeus pelos Ashkenazi. A discriminação e diferença ao nível das oportunidades entre as duas estirpes têm sido flagrantes.

A esta divisória acresce o efeito da chegada de centenas de milhares de russos no período subsequente à Perestroika. O projeto tipicamente nacionalista, de construção de um estado-nação moderno, laico, e com utopia de progresso, trazido pelos Ashkenazi, foi temperado e, depois, posto em causa, quer pela diversa experiência cultural dos Mizrahi, quer pelo conservadorismo de que os russos são acusados pelos setores mais liberais... As diferentes origens nacionais do judeus de Israel, e os diferentes períodos da sua chegada, dão conta de alterações quer na política do Conflito, quer na política interna do modelo de organização da sociedade, quer nas “guerras culturais” da sociedade –o crescimento da influência conservadora religiosa tem maior apoio entre os “orientais” e as posturas de direita, nomeadamente na política relativa ao conflito, devem algum do seu crescimento à influência russa na política nacional.

A isto poder-se-ia acrescentar pelo menos duas outras contradições. A mais fundamental é a que diz respeito à incorporação – e sua falha – dos árabes com cidadania israelita, que, sejam muçulmanos ou cristãos ou mesmo druzos, vivem naturalmente numa ambiguidade entre a sua pertença política e a sua lealdade cultural, sobretudo face aos seus parentes nos territórios. A outra seria a que foi introduzida pela vinda dos judeus etíopes e pela introdução de uma variável “racial”, pela visibilidade fenotípica, e de uma diferença cultural mais radical do que a constituída pelas diferentes origens regionais dos judeus chegados antes. É óbvia a subalternidade deste na sociedade, como o é a dos árabes, sobretudo a dos palestinianos que aqui trabalham.

Uma outra ordem de contradições decorre da mistura entre a natureza do estado e as dinâmicas identitárias das sociedades contemporâneas. A divisão entre setores mais conservadores e setores mais liberais dá-se, como no resto do ocidente, entre, por um lado, visões mais liberais da economia e visões mais social-democratas e, por outro, entre visões mais conservadoras nos costumes e outras mais liberais. No caso de Israel estas tensões estão presentes desde o início, na oposição entre um sionismo socialista e um sionismo religioso ou tradicionalista. Elas agravam-se com a oposição entre secularismo e religião e refletem-se não só em diferentes perspetivas sobre o Conflito, como em diferentes perspetivas sobre direitos cívicos e liberdades individuais. No campo do género, a segregação por sexo entre as camadas mais religiosas, que tentam impor a sua visão à organização da vida social, choca com o igualitarismo de género entre as camadas seculares; o mesmo se pode dizer em relação às questões de sexualidade, nomeadamente LGBT. Como muitas outras sociedades desenvolvidas, a imigração e o refúgio constituem também um “problema social”, como se tem notado nas reações negativas pelos setores mais conservadores à chegada de imigrantes do sul do Sudão ou da Eritreia – diferenciados quer da imigração filipina para apoio domiciliário dos idosos, ou de diferentes vagas de aliyah por parte de diferentes populações, como os judeus etíopes.

Todos estes níveis de contradição atravessam as divisões de classe ou estatuto socioeconómico ou diferentes tipos de capital simbólico, e tendem também a organizar-se em aglomerações geograficamente distintas, resultantes em ambientes sociais bem diversos – a “bolha” secular e cosmopolita de Tel-Aviv, a religiosidade crescente de Jerusalém, o caráter mais hibridizado de judeus e árabes de Haifa, os colonatos nos territórios ocupados ou os próprios territórios ocupados, onde a frágil e pequena jurisdição da Autoridade Palestiniana ombreia com a jurisdição de exceção, típica de uma ocupação militar, do resto do que poderá vir a ser o estado palestiniano.

Por fim, Israel é ainda o lugar de três outros fenómenos: lugar de peregrinações e migrações várias baseadas quer na visitação por parte de judeus da Diáspora, quer por parte de fiéis de outras religiões, especialmente cristãos, que definem o lugar como “Terra Santa”; lugar imaginário de uma crescente diferenciação entre ser judeu da diáspora ou judeu de Israel; e lugar icónico das próprias contradições da modernidade, lugar em relação ao qual (desde a questão do antissemitismo, até à questão da solidariedade com a Palestina, passando pelas posturas face ao(s) sionismo(s)) todo o mundo tem uma opinião e todo o mundo usa como instrumento de posicionamento ideológico.

É óbvio que Israel é uma especificidade. Não é nem um estado-nação do tipo dos que se formaram na Europa no século XIX, nem uma situação colonial propriamente dita, nem sequer uma autonomização de raiz europeia num contexto colonial, como o foi a África do Sul. É outra coisa, única. Assim como a Palestina constitui uma situação única. A situação em que vivem os árabes em Israel/Palestina é insustentável (a não ser que se aceite cinicamente um status quo como o atual, em que as pessoas vivem nos interstícios da anormalidade ou mesmo às cavalitas dela) e os israelenses sabem-no também, posicionando-se, aliás, de formas muito diferenciadas face à questão. Todas as contradições dinâmicas e/ou entrópicas da sociedade israelense dependem, de alguma forma, da resolução do Conflito. Mas, num plano que não pode deixar de ser moral, quem precisa mais urgentemente de uma solução são os próprios palestinianos. E que soluções surgem no cenário? Num extremo, e de um lado e do outro, os fanáticos que pensam as coisas em termos de legitimidade e autenticidade e que, por isso, só podem pensar na expulsão e no extermínio do Outro. No outro extremo, a minoria racionalista e liberal, sobretudo intelectual, que sonha com a utopia de um estado único, laico, de uma pessoa, um voto. No meio, a solução que está na mesa, a dos dois estados, com cidadanias diferenciadas mas, naturalmente, continuando e aprofundando uma economia integrada. Esta solução, que é a dos Acordos, está a ser sistematicamente posta em causa ou impedida, quer por razões de política interna em ambos os lados, quer por causa da questão dos colonatos judeus nos Territórios, quer pela do direito de regresso dos exilados e refugiados palestinianos, quer ainda pela geopolítica regional. Faltando a verdadeira autonomia à sociedade palestiniana para que se possa também aí identificar as suas contradições dinâmicas ou entrópicas (de classe, de religião, de experiência diaspórica, de género, de ideologia) certo é que o Conflito, mais do que um fantasma, é um monstro presente, e só a sua resolução poderá levar a que as outras contradições se vão resolvendo “apenas” com os fantasmas que todos temos.  Israel e Palestina são a epítome, empolada e exagerada até ao nível do trágico, das contradições da modernidade e, agora, da modernidade tardia. Por isso, sendo a sociedade deste território “igual às outras”, ela é “mais igual do que as outras”. É aqui que tudo pode ser pensado.

Disclaimer para lá (ou não...) do realismo antropológico: Eu gosto de Israel e da sua democracia. Eu defendo a existência do estado de Israel. Eu gostaria de um estado de Israel mais laico e de uma política oficial israelense não dominada pelo sionismo de direita. Eu estou certo de que gostarei da Palestina, sou solidário com o sofrimento palestiniano e reconheço que, no momento em que escrevo, a situação palestiniana não é simétrica da israelita, mas pior. Eu defendo o realismo histórico e sociológico: as pessoas existem aqui, são daqui, aqui ficarão. Isso aplica-se a Israel e deve aplicar-se à Palestina e ao direito que os dois povos têm a Estados viáveis e seguros.

Nota: prefiro a norma brasileira de “israelense” para referir o que é de Israel, e “israelita” como sinónimo de judeu. O uso de “israelita” para ambas as coisas no português de Portugal parece-me erróneo.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

Rabis* pelos Direitos Humanos

Alguém que andou a fazer o mesmo e ao mesmo tempo no Dia de Jerusalém :) Aqui, no site da Rabbis for Human Rights.


*Bem sei que em português se diz "rabinos". Mas acho a palavra desagradável (ela ganhou mesmo contornos anti-semitas) e não me parece que "rabi/s" seja errado.

Cabeceira


Na mesa de cabeceira, e porque já era altura de ir além de Amos Oz ou de David Grossman, dois livros bem interessantes: Friendly Fire, de A. S. Yehoshua e Dancing Arabs, de Sayed Kashua. (Pena que o mais recente deste último, Second Person Singular - a história de um árabe que se faz passar por judeu - não esteja ainda traduzido).

   

moda/modéstia


Parece óbvio dizer-se que "a burka" (já lá iremos...) esconde mais do que revela. Mas há vários erros nisto. Ela também revela mais do que esconde, nomedamanete a pertença religiosa e a afirmação de certas normativas a ela associadas (desde logo o ordenamento de género). E mesmo quando se fala daquilo que ela esconde, não sabemos exatamente o quê - que vestem as mulheres por baixo? Que fazem quando estão entre companhia feminina? Que fazem em casa?

Aqui convem fazer um parênteses e dizer: a burka é uma forma específica de vestuário, de um contexto étnico e religioso concreto, não de todo o Islão. Tornou-se, sobretudo no Ocidente, num ícone e numa metonímia de todo um espanto e repulsa perante o Islão mais conservador. Ela serve tanto ou mais para "falar" da islamofobia como para falar da solidariedade com a opressão das mulheres. Acaba por esconder várias outras coisas: dos feminismos islâmicos até à diversidade de formas de organização do género em países islâmicos, até às negociações e manipulações que mulheres e homens de diferentes identificações sociais fazem das regras de vestuário.

É já sabido como no Irão, por exemplo - onde não há, em rigor, burka - muitas mulheres investem no que vestem por baixo do traje islâmico, para uso caseiro. E nem sequer comecemos a falar dos múltiplos sentidos e interpretações e usos do traje islâmico em termos quer de relações de género, quer de decisões individuais, quer de afirmações étnicas ou políticas (basta recordar os célebres e muito confusos debates sobre o "véu" em França).

Tudo isto a propósito disto: não é só no Islão que o traje feminino é alvo de atenção religiosa. Já nos esquecemos das posturas cristãs em relação a isso, talvez porque muitas delas se diluiram no que depois parece "simples" código cultural. Também no judaísmo ortodoxo vamos encontrar esta questão. Ela é complexa: vejo nas ruas mulheres que claramente seguem os preceitos religiosos das vertentes ortodoxas mas que o fazem com um estilo que revela que a sua adesão às normas foi isso mesmo, adesão; e com motivações que quase roçam o new-age ou uma espécie de entusiasmo "étnico". Lado a lado com outras em que se adivinha a enculturação desde crianças em certos códigos de modéstia, impostos e controlados. Haverá de tudo. Penso na minha irmã adotiva americana (judia), que era uma miúda "normal", de classe média alta, fascinada com maquilhagem, barbies e vestidos e que hoje, já adulta, se converteu a uma identidade ultra-religiosa - usa saias compridas, peruca ou lenço, cobre os braços e as mãos.

Nada mais errado do que pensar à maneira das ciências sociais ou da política "modernas" (dos finais de século XIX e da primeira metade do século XX), imaginando uma dicotomia clara entre iluminação, emancipação e secularismo, por um lado, e trevas, submissão e religião pelo outro. (Muitos dos fundadores do estado de Israel pensavam assim e talvez por isso não se tenham importado de conceder aos rabinatos a gestão de muitas áreas do direito civil. Pensavam que o seu projeto laico iria triunfar "naturalmente", com a "evolução" da sociedade. Bem, enganaram-se)

Veja-se este anúncio a fatos de banho dirigido sobretudo (mas não só?) às mulheres judias religiosas (aqui "religioso" quer dizer "super" ou "ultra" religioso, com implicações politicas e de uso do espaço público e não como mera referência às convicções individuais de um "sentimento religioso privatizado") com que me confronto todos os dias ao abrir a página do Ha'aretz, um jornal liberal e muito crítico do crescimento da ortodoxia religiosa: modéstia, luxo e moda são significados que vão juntos e não, ao contrário do que diria o pensamento dicotómico, oxímoros. A tarefa antropológica mais difícil de todas é compreender - sobretudo compreender o que nos dá comichão...



domingo, 20 de maio de 2012

Dia de Jerusalém

"Dia de Jerusalém". Celebra a reunificação/ocupação da cidade em 1967. Além das cerimónias de estado, é costume sairem à rua muitos jovens sionistas e não são raras as situações de provocação e confronto em bairros predominantemente árabes. A banda sonora do dia é, aliás, estranha: muita juventude na rua, celebrando num modo entre a manifestação, a simples passeata, e o carnavalesco; silêncio e circunspeção árabes. Aqui, claro; e helicópteros sobrevoando constantemente. De manhã ainda as coisas não tinham escalado e fui ao shuk, ao mercado. Nesta minha estadia o modo é o do viajante subjetivo, chamemos-lhe assim. Não é o modo jornalista, nem o modo turista, nem sequer, ainda, o modo antropólogo. Não sigo os protocolos de nenhum deles, mas deixo-me simplesmente impregnar, sentir, ver - numa atitude de prospeção, em suma.





Compro cerejas-passa a dois mercadores com quem tive mesmo de falar em hebraico (mal):


Conversei com este vendedor de pão. Ele estava convencido que Portugal era na América do Sul e eu, pobre tuga, tive lhe falar em Sfarad (Espanha) para que percebesse que é na Europa...:


Mais abaixo na rua, o rapaz que me vende tabaco, mal me ouve dizer "ani mi-portugal" começa a falar espanhol, perguntando-me, "ah, fala espanhol, não é?". "Bem, falar até falo, mas a minha língua é o português". "Ah, sim, claro, desculpe: 'obrigado', 'frango'". ("Frango?" What the... Ainda não vi Nando's aqui). Curioso é que, por via da nacionalidade, acho que parte do princípio de que sou cristão, e sugere-me a ida à Via Crucis, ao Santo Sepúlcro, a Nazaré. Explico que a Nazaré não fui, mas andei pela Galileia há dois anos. Ele imediatamente liga a Galileia ao Líbano, diz que tenho de lá ir, "cristãos e muçulmanos juntos" (pois...). Adivinho que é árabe cristão. Pergunto. Confirma. Bingo.

Pela primeira vez nesta estadia fui à Cidade Velha. Estava a armar-me em não-turista. Na Porta de Jaffa, o carnaval do Dia de Jerusalém: os turistas de sempre, os soldados (em excursão, neste caso), alguém a fazer de cavaleiro medieval, repórteres. Jerusalém tem o seu quê de Disneyland, só que uma em que acontecem coisas a sério e sérias.



Perco-me na Cidade Velha. Deixo-me ir até à secção muçulmana, para fugir às celebrações, à quantidade de adolescentes correndo e cantando com bandeiras. As lojas estão a fechar. Saio pela Porta de Damasco, que dá para Jerusalém Este, a parte árabe e reunificada/ocupada. Sente-se um clima. Mais soldados, estes definitivamente não em excursão. Começam a colocar barreiras na rua defronte. Saio por pouco. Há repórteres, de TVs israelitas e outras. Uma altercação ao longe. O quê exatamente, não sei. Sirenes. Ao meu lado, dois miúdos, não teriam mais de 12 anos, um judeu, com a t-shirt sionista dos celebradores do Dia, o outro árabe. Trocam palavras duras, provocam-se, tocam os ombros, miúdos em pátio de escola. Nada acontece. Adultos, judeus e árabes, mandam-nos estar quietos. Duas mulheres árabes explicam-me que, entretanto, foi cortado o trânsito na zona, montado um checkpoint.


Subo de novo na direção da Porta de Jaffa. Pouco antes, e graças a ter ficado sentado a apanhar sol ao lado de dois soldados que falavam russo entre si, vejo chegarem 4 figuras totalmente pintadas de branco, vestidas de soldados, com armas. Tratava-se obviamente de uma performance. O branco é a cor do Dia de Jerusalém. Os figurantes, que assim provocavam a militarização e instigavam reações, estavam a ser provocados por miúdos que cantavam slogans sionistas. (São de facto performers - estes (obrigado, Internet)):






[Escapo à massa de adolescentes, bandeiras, e o som dos helicópteros. Jovens religiosos dançam ao som de música techno bem alta no cimo de uma furgoneta. O dia termina numa nota bem diferente, numa simpática livraria-café, a Tmol Shilshom, escondida num logradouro a que se chega aravés de um beco, como muitos tesouros nesta cidade. Para ouvir um jurista americano, Frederick Hertz, falar de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Sobre isso,  no Snake&Snail].










Dia off em Tel-Aviv

Sem autocarros ou elétrico por causa do shabat, sigo a pé pela Herzl. De vez em quando passa um carro, mas em geral só se vê pessoas caminhando. Esta é a nova Jerusalém, a ocidental, com a ponte do Calatrava adornando o novo sistema de elétricos rápidos. É quase irónico que esta modernidade, certamente feita como contraposição simbólica ao "oriente" do outro lado (veja-se este artigo sobre o estudo da Ir Amin sobre Jerusalém este), acabe por ser ocupada cada vez mais pela população religiosa, parte dela anti-sionista - não pelas razões usuais do anti-sionismo, mas porque para esse segmento Israel como entidade política é um absurdo antes da chegada do Messias.



Os ultra-religiosos, sobretudo os mais visíveis haredim, são um desafio e um exemplo antropológicos. Estamos habituados a associar o extremismo religioso a formas específicas de puritanismo e controlo do corpo e somos surpreendidos neste caso. Esse controlo existe, claro, mas aplica-se a coisas diferentes das da experiência cristã ou outras - está lá a segregação sexual, está lá o controlo das fronteiras do puro e do impuro entre o grupo a que se pertence e os outros. Mas há formas de expressão que surpreendem quem pense que a gramática destas coisas é sempre a mesma: na dança, na música, na loquacidade, na ocupação do espaço público, não estamos perante nem o puritanismo protestante nem a atitude de freira. No caminho ao longo da Herzl, um jovem haredi com brinco na orelha cruzou-se comigo e cinco minutos depois foi abalrroado por outro que corria desenfreado, segurando o chapéu com uma mão, só para atacar o outro pelas costas na brincadeira. Mas esta cidade está "tomada" e cada vez mais, por uma população que tem mais filhos, que recusa enviá-los para a tropa, que beneficia do estado social e que procura controlar as regras gerais de convivência. E a luta está declarada. Veja-se, por exemplo, esta disputa entre seculares e religiosos em torno de um espaço devoluto e sobre o que fazer com ele.

Avanço pela Jaffa Road, também ela vazia e mando bugiar um taxista que quer dar-me boleia - mando bugiar porque ele, depois de toda uma sedução, perguntando de onde eu era, dizendo "bom dia" em perfeito português, etc, arranca sem se despedir e com cara de pau quando lhe digo que não quero táxi e que "ani lo tayar" (não sou turista). Na Ha-Rav Kook entro num van, um sherut, o serviço de táxis coletivos, assegurados aos sábados por condutores sobretudo árabes. Rapidamente enche com gente querendo ir para Tel-Aviv. Fico sentado entre um jovem israelita com dreadlocks, manipulando o seu i-pod, e um jovem negro que não falava hebraico nem inglês. O sherut arranca e num sinal vermelho é parado por um homem negro, falando muito pouco hebraico, que começa uma conversa complicada com o condutor, que só lhe pergunta "o que é que queres, o que é que queres?". Aparentemente o outro queria falar com o que estava sentado ao meu lado, que ainda se mexe para sair do táxi. Mas o condutor, irritado com a situação, e vendo o sinal a mudar para verde, grita um impropério e arranca. Fico pensando como serão as atitudes dos árabes para com o crescente número de imigrantes africanos em Israel...

Chego a Tel-Aviv a uma estação de autocarros com todos os estereótipos do terceiro mundo. Uma quantidade enorme de vans, gente de todas as cores e roupas circulando, gesticulando, correndo, músicas de todos os tipos, lojinhas e lojecas, praças inteiras cheias de africanos conversando em grupos, comerciando, divertindo-se, esperando, circulando. Aparentemente trata-se de uma vasta população de imigrantes, não necessariamente nem sobretudo judeus etíopes, mas sim imigrantes económicos e refugiados, cujo mau tratamento tem sido denunciado por alguns jornais - ou não fosse o ministro responsável de um partido da direita ultra-religiosa, acusando os imigrantes do mesmo tipo de contaminação e impureza pela qual os seus antepassados foram acusados...

Pego mais um sherut, o número 5, desta feita conduzido por um russo, até ao centro Dizengof e encontro-me com o meu amigo Or. Vou até sua casa, e do seu companheiro, o Shai, onde me recebem para um belo almoço de peixe, kinoa e salada. A comida e as pequenas interações do quotidiano urbano talvez sejam os melhores indicadores da sensação que se tem de um encontro e mistura entre "a europa" e "o médio oriante". Na comida nota-se a influência da europa central - nos laticínios, nas sobremesas, por exemplo - aliada à influência "oriental" - os humus, as pitas, por exemplo - e tudo isto se encontra e potencia numa cultura das saladas e dos frescos, que é extremamente revigorante e saudável. No pequeno quotidiano, e só neste dia, notei duas "linhagens". Por um lado, toda a gente respeita os sinais de trânsito e as passadeiras, por outro ninguém faz fila para nada; por um lado os vans parecem funcionar como numa cidade africana, mas por outro percebe-se que têm rotas definidas, que estão oficializados. Dentro deles, as pessoas sentam-se primeiro, depois dão o dinheiro a outro passageiro, que o passa a outro até chegar ao condutor e vice-versa para o percurso do troco.



O meu amigo está doente, com febre, e deixo-os descansando e vou para a praia, dia off. Praia urbana, claro (o Rio vem à mente) e, sendo sábado, apinhada. Procuro a praia gay, lá para o fundo, tal como a praia segregada, onde em certos dias só podem ir homens e noutros mulheres, oferecendo assim um serviço aos mais religiosos mas, curiosamente, também a mulheres que não queiram ser incomodadas. Por azar não leio os sinais bem - os que dizem "não são permitidos animais" - e caio na única praia que permite cães, pelo que tive um dia... canino. Ninguém controlava os cães ou pedia desculpa pelo que faziam; mas também ninguém pedia desculpa pelo spray solar que voava até aos outros, pela música a altos berros, pelo cheiro do haxe, ou pelo que fosse. Felizmente - e não estava exatamente na praia gay, até porque não era tão evidente como isso - também os casais do mesmo sexo não pediam "desculpa" por estarem de mãos dadas.


No regresso deambulei por uma cidade de calções e havaianas, bicicletas e scooters, sem a paisagem humana religiosa - o inverso de Jerusalém. Acabo por voltar a Jerusalém. O Or tinha ido ao médico e precisava mesmo de descansar, pelo que cancelámos planos de divertimento noturno. Tel-Aviv e Jerusalém são tão perto que facilmente tomei o autocarro (o shabat acabara ao pôr-do-sol, momento lindo, aliás, com n estabelecimentos reabrindo, e para a noite, como se fossem flores noturnas desabrochando), desta vez noutra estação, na zona super-moderna da cidade. Ao meu lado uma mulher desenhava no i-pad, tocava Gotye em versão dançável, seguindo de cançoes schmaltzy hebraicas (muitas rádios misturam tudo, o que é delicioso) e as luzes da autoestrada adormeceram-me na subida para Jerusalém.



Hoje - escrevo no dia seguinte à ida a Tel-Aviv- é Dia de Jerusalém e as coisas já aquecem. Chega de intervalo Tel-Aviviano (mesmo que haja, e há, muito que explorar em termos de pistas de pesquisa - o meu amigo ficou de me apresentar a um outro que trabalha numa clínica de DST com imigrantes).  Há que sair à rua e ver.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Notas soltas, 17 maio


Nota solta 1: Ontem uma aluna deu-me boleia, e a mais duas colegas, a seguir à aula. Falávamos sobre os diferentes sistemas universitários e ela comentou: "Pois é, vocês no fim do liceu especulam sobre qual o curso em que vão entrar e nós sobre qual a unidade do exército".

Nota solta 2: Esta minha aluna é de Haifa. Segundo ela, uma cidade com mais população árabe e com orgulho num certo nível de integração, à semelhança do caráter multicultural das cidades portuárias. As representações locais apontam no sentido de um trio: a Jerusalém disputada e religiosa, a Tel Aviv secular e hedonista, a Haifa misturada e mediterrânica.

Nota solta 3: Conversa-se no carro sobre questões raciais que haviam sido abordadas na aula, a propósito do Brasil e dos EUA. Uma aluna brasileira-israelense assume como no Brasil não tinha zonas de contacto que permitissem desenvolver amizades próximas com pessoas negras. O mesmo para outra aluna israelense que viveu nos EUA. E a condutora refere como não conhece árabes com quem tenha relações de proximidade.

Nota solta 4: A minha aluna brasileira, M, cresceu numa família ateia e sem ligações à comunidade judaica. Mas resolveu fazer aliyahcomo parte de um processo de mudança de vida, de riqueza identitária, e de aventura. O processo é, sem si mesmo, rico em termos de análise antropológica. Contacta-se a Agência Judaica para iniciar o processo, cujo primeiro passo é a comprovação da ascendência judaica até à geração de um avô/avó. A prova é religiosa, feita por um rabino que analisa documentos como certificados de casamento ou de óbito, entre outros. Aceite a candidatura, o Estado paga a viagem, concede a cidadania à chegada e coloca as pessoas em Centros de Absorção. São de vários tipos, para jovens, solteiros, famílias, e há-os específicos para os judeus etíopes. Vive-se nos centros, com um subsídio pequeno, podendo logo procurar-se trabalho. Aprende-se hebraico, num processo que, no caso dela, foi de 5 meses. A narrativa das diferentes origens nacionais e motivações do colegas de Centro é fascinante - e seduz para uma investigação antropológica sobre projetos e reconfigurações identitárias, num interface entre os indivíduos, as suas origens, e o papel do estado na formação de identidade. Há, aliás, um livro sobre um caso específico de um centro para etíopes (Immigrants and Bureaucrats, de Esther Herzog)

[o blog da M, em português: Ani rotza bira]

Nota solta 5: Quintas-feiras: estudantes e mais estudantes (e não só) nas ruas e bares. Sexta de manhã as lojas abrem e toda a gente se abastece. A partir do meio da tarde tudo fecha e o Shabat começa ao pôr-so-sol, prolongando-se até ao pôr-do-sol de sábado. Sábado á noite, mais diversão. Domingo, dia de trabalho normal, não começa, por causa dos efeitos da noite anterior, antes da hora de almoço (aulas, por exemplo, só na tarde de domingo). Este "desvio" no tempo é das coisas mais curiosas em termos de adaptação cultural.

Nota solta 6: Jantar fora, visitar um bar alternativo, acabando no bar gay de Jerusalém, o Mikvah (uma ironia: a palavra quer dizer banho ritual de purificação e é uma referência religiosa...). M tem uma postura secular e de esquerda, mas uma sensibilidade antropológica. A princípio detestava o Shabat e o peso religioso que isso significava sobre a cidade, que fica com as ruas vazias (embora com a vantagem de, nos poucos sítios abertos, saber-se que toda a gente é secular...), mas aprendeu a gostar do silêncio, da contemplação, da sociabilidade diferente, que cultiva com jantares caseiros com amigos, mesmo sem a tonalidade confessional.

Nota solta 7:

Gayness: transnational culture par excellence...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

As I lay me down


1. A turma que leciono, com 16 inscritos, tem uma americana, duas pessoas brasileiras (também israelitas) e duas árabes, sendo as outras judias israelitas das mais diferentes origens. E toda a gente sorri quando falo de narrativas nacionalistas, de colonialismos, de identidades complexas ou contraditórias. Sabe bem. Cansado, mas bem cansado, não há como descansar na relva no meio de uma primavera esplêndida. Até que a americanada começa a festa, tal qual como no ISCTE em tempos de fim de ano letivo.


As I lay me down...

...and as they wake me up

2. Os corredores da Universidade Hebraica de Jerusalém têm uma curiosa característica, que se vê muito nos EUA também, mas que aqui está blown out of proportion. Cada edifício, cada corredor, cada sala maior, anfiteatro, cafeteria, you name it, tem uma dedicatória indicando em grandes e visíveis letras quem foram os beneméritos. São nomes de pessoas e famílias um pouco de todo o mundo, mas predominando os EUA. Está lá Barbra Streisand, pois claro :-) Os mais preconceituosos diriam logo: "ah, ha, o lobby judeu". Esta expressão contém insinuações  e sentidos antigos que não podem ser tomados inocentemente, invocando teorias da conspiração próprias dos discursos antisemitas. Se pensarmos bem, qual o problema de um "lobby", no sentido de pessoas que se identificam com uma causa, neste caso o sionismo? Outra discussão bem diferente seria a discussão sobre este, claro (mesmo assim diverso nas suas manifestações, da vertente socialista à vertente hipernacionalista), mas ela não é nem nunca foi a que o antisemitismo diz ser ("a conspiração internacional"). Mas o facto em si mesmo de estas pessoas se mobilizarem para contribuir financeiramente para uma universidade, e de quererem o reconhecimento do seu gesto, é apenas estranha para quem vem de um país como o meu onde nunca acontece nada disto, 2 ou 3 fundações à parte. [Dei por mim a fantasiar na relva: tivessem as circunstâncias históricas e culturais proporcionado aos ciganos a sedentarização da sua atividade comercial, e tivessem eles professado uma religião baseada na cultura escrita e na especulação intelectual e, na sequência dos nacionalismos do século XIX, certamente teríamos hoje um estado cigano algures no Norte da Índia, com contributos da diáspora cigana, e provavelmente com um conflito com indianos desapossados de casa, terra e autonomia...)


3. Converso com o meu amigo Or, que já conhecia de 2010. Trocamos ideias sobre as minhas hipóteses de pesquisa aqui, ainda tão vagas, ainda tão à espera da surpresa, da epifania, do fio de novelo para desenrolar, da bola de neve. Explico-lhe como me interessam identidades contraditórias, ambíguas, e assim. Praticamente nesse momento encontramos no elevador um estudante de pós-graduação, apressado e excitado, que vai a correr para a TV para contrariar declarações homofóbicas de alguém ligado à Câmara Municipal. Fico a saber que este ativista cresceu na tradição Haredi, ultra-ortodoxa, tendo saído dela certamente ao assumir-se como gay. Aí está uma identidade em movimentos complexos.







terça-feira, 15 de maio de 2012